Avisos:

Já tentou ser feliz hoje? O que está esperando? Não espere a felicidade bater na sua porta, saia a procura dela.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Em um piscar de olhos - Cap. II





Eu não conseguia trabalhar direito, era difícil se concentrar, meus pés coçavam, meus dentes rangiam, meus dedos pareciam estar em chamas, eu estava muito nervoso, não podia ser verdade tudo aquilo, era tudo muito absurdo e totalmente fora do que condiz com a realidade, o que estava acontecendo comigo?
Era a pergunta que martelava em minha mente, eu levantei da minha mesa, minha sala era igual à de todos no escritório, cada um tinha sua salinha individual em um mesmo espaço, a única coisa que dividia- nos eram as paredes de meio metro. E como eu sou alto consigo observar o que todos estão fazendo, e ao olhar ao redor tentei memorizar tudo que cada um estava fazendo, a Penny do faturamento estava aparentemente preenchendo uma planilha, nada de importante, o Reinan do Controle de qualidade estava concentrado em um dos nossos novos produtos, a Carolina do PCP não fazia nada, estava apenas olhando para janela pensativa, eu não conhecia nenhum dos meus colegas de trabalho, apenas sabia o nome de alguns vagamente, não sabiam onde moram, do que gostam de fazer, de ouvir, de ler ou de conversar, para ser sincero eu estava pouco me lixando pra todos eles.
- Algum problema Lucas? Ouvi uma voz feminina.
- O que? Oh não, problema nenhum. Respondi meio sem jeito.
Era nada mais, nada menos que Walesca Castanhari, filha do meu chefe, uma garota muito bonita e inteligente, porém insuportável, seu cargo na empresa? Vigiar o que cada um está fazendo, se todos estão cumprindo seus deveres e obrigações, mas ela gostava de intitular esta tarefa como Supervisora de produtividade, uma X9 isso sim!
- Notei que você está aí de pé por algum tempo, pensei que havia algum problema.
- Não, não, problema algum, eu apenas... Levantei para esticar as pernas.
- Entendi. Que tal você esticar os dedinhos agora e terminar o relatório que meu pai pediu há três dias.
Eu nem me lembrava daquele maldito relatório, ainda faltava muito para concluí-lo, o Sr. Castanhari me deu o prazo de quatro dias para entregá-lo, eu tinha apenas esse dia para terminar e entregar no dia seguinte, aquela garota estava ciente de tudo que acontecia naquela empresa, apesar de termos praticamente a mesma idade, ela tinha um potencial gigantesco, não só por ser filha do dono da empresa, mas por ser muito determinada e ágil para achar soluções para problemas aparentemente sem solução, uma garota assustadora e ao mesmo tempo, assustadoramente linda.
- Eu... Entregarei amanhã sem falta senhora.
- Assim espero.
Eu me sentei e continuei meu trabalho, a todo instante a imagem do rosto daquela garota da ponte vinha em minha mente, eu me perguntava se isso também se repetiria, eu não podia deixar acontecer de novo, olhava a todo tempo para o relógio, assim que desse meu horário, correria para o elevador, tinha que chegar naquela ponte, antes das dez horas.
O tempo parecia não passar, eu parecia um zumbi escrevendo aquele relatório, já eram oito da noite, eu saía às 9h, sempre era o último a sair, e para chegar a tempo na ponte eu teria que tomar um atalho, não queria arriscar chegar atrasado, peguei o celular e abri o GPS para analisar que caminho seria melhor tomar para chegar até a ponte.
- Eu não fui absolutamente claro que não admito celulares em horário de emprego? Disse o Dr. Paulo logo atrás de mim.
Gelei, aconteceu o mesmo que no dia anterior, só que de maneira diferente, eu não podia assimilar o quão absurdo era aquilo, da outra vez eu peguei o celular apenas pra jogar vídeo game, e o horário era diferente, seja lá o que era aquilo, não seguia um parâmetro.
- Desculpe senhor Paulo...
- Desculpas não fazem você concluir o relatório, é isso que você faz durante seu dia? Meche no celular? Como quer trabalhar na minha empresa chegando atrasado e desviando sua atenção para coisas inúteis?
Inexplicavelmente a reação dele foi à mesma, até o sermão, cada palavra foram exatamente iguais ao do que há havia acontecido, a sensação de Déjà vu era absoluta.
- Prometo que não irá acontecer novamente.
- Não me venha com promessas, de você só quero resultados!
- Sim senhor.
Eu não tinha o que falar afinal ele estava com a razão, abaixei a cabeça e voltei ao trabalho, já estava quase na hora de sair. Peguei minhas coisas e fui até o elevador, só conseguia pensar naquela garota, eu tinha que chegar a tempo, eu era a sua única chance, se tudo realmente acontecesse como na minha “previsão” ela iria sentar se jogar da ponte e eu tinha que impedir.
- Dessa vez eu vou salva-la! Disse pra mim mesmo.
Assim que saí do prédio, peguei um taxi e dei as instruções por onde ele deveria ir, peguei o caminho mais rápido, eu estava feliz por estar fazendo tudo isso diferente, afinal no outro dia eu tinha ido pra casa a pé, pois tinha esquecido o dinheiro do taxi, mas nesse exato momento eu lembrei disso e peguei minha carteira e para minha surpresa, eu havia esquecido de novo, tive que mandar o taxista parar imediatamente.
- Por favor, pare aqui, eu estou sem dinheiro.
- Então cai fora do meu taxi!
Tirei uma nota de cinco e dei a ele, era a única que tinha na carteira, abri a porta e comecei a correr novamente, nesse momento notei o quanto o destino me manipulava, eu havia esquecido novamente do dinheiro pra voltar pra casa, as coisas aconteciam diferentes mas tinham uma conclusões idênticas.
- Se for assim então eu chegarei a ponte no mesmo horário, não preciso nem correr, posso ir caminhando lentamente que chegarei a tempo, afinal essa droga de dia vai me manipular de alguma maneira. Pensei comigo mesmo.
Enquanto eu caminhava, vi uma cena tensa e inusitada, em um semáforo, dois bandidos roubavam um carro em meio ao transito caótico, fiquei de longe apavorado, eu não tinha visto isso no outro dia, talvez seja por que eu tinha tomado um caminho diferente, os dois expulsaram o motorista e tomaram o carro saindo logo em seguida na contra mão em alta velocidade, olhei para o relógio, eram 21h41min, eu comecei a caminhar mais rápido, não tinha convicção de que chegaria a tempo, então voltei a correr, e assim que dobrei a esquina eu vi a garota correndo em direção a ponte.
- É ela!
Corri atrás dela, eu estava determinado a ajudar aquela garota, de longe notei que seus pés estavam descalços, ressaltando a minha hipótese que ela teria saído de sua cama, o que me levou a pensar que ela morava por perto.
- Hei garota! Não faça isso! Gritei.
Ela olhou pra trás e quando me viu, correu mais rápido em direção a ponte.
- Espere!
Eu tentei lembrar- me do nome dela, sabia que era um lindo nome, e combinava perfeitamente com seu rosto angelical, era Clara, sim este era seu nome. Enfim ela chegou à ponte e imediatamente subiu na lateral.
- Fique longe! Gritou ela.
- Oi? Lembra de mim? Perguntei caminhando lentamente em sua direção.
- O quê? Eu nunca te vi antes! Vai embora! Deixa-me em paz!
- Nos conhecemos ontem! Não se lembra?
- Do que você esta falando?! Se chegar mais perto eu irei pular! Eu juro! Não duvide de mim!
- Estou certo de que pulará... Disse eu parando imediatamente.
- Vá embora!
- Clara não é?
- O quê?! Como sabe meu nome?
- O meu é Lucas, mas é obvio que você não deve saber...
Só ai eu percebi que era impossível ela se lembrar de mim, ela tinha a mesma fisionomia triste e desesperadora, estava muito aflita e nervosa, nos seus olhos eu via a imensidão do seu desespero.
- Não faça isso de novo Clara, não vale à pena! Por que está fazendo isso?
- Como assim de novo? Você é maluco! Fique longe de mim!
Dei um passo à frente.
- Calma. Eu só quero te ajudar.
- Ninguém pode me ajudar.
- Acredite em mim... Eu posso!
- Não. Ninguém pode. Disse ela pulando da ponte.
- Nãaaaaaaaao! Gritei agarrando seu pijama que acabou rasgando.
Eu não consegui segura-la de novo, apenas a vi cair, tudo ficou lento em minha mente, conseguia ver nitidamente seu rosto olhando pra mim durante a queda, seus olhos cheios de lágrimas, eu apenas estendia a mão inutilmente enquanto a via cair para a morte, e assim que seu corpo se chocou com o chão frio e sujo da Avenida Bandeiras, eu fechei os olhos, pois não queria ver seu corpo ensanguentado, mas assim que os abri novamente, percebi que meu maior pesadelo estava apenas começando.
- Mas o quê...
Eu estava novamente na minha cama, no meu quarto e na minha casa, coberto pelo mesmo lençol, vestindo a mesma roupa de dormir, e nada, absolutamente nada fazia mais sentido pra mim.
- Que diabos... Está acontecendo comigo?

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