Avisos:

Já tentou ser feliz hoje? O que está esperando? Não espere a felicidade bater na sua porta, saia a procura dela.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Em um piscar de olhos - Cap. IV




Fiquei na cama por alguns minutos, eu não conseguia tirar da cabeça aqueles olhos tão tristes, não poderia esquecer, não deveria. Meu celular tocou, era minha mãe, não atendi, o joguei no chão, virava-me de um lado para o outro sobre a cama, estava pensando no que fazer. Precisava entender o que estava acontecendo comigo, afinal aquele era o quarto dia, já podia concluir que não iria parar enquanto não tomasse uma atitude, mas que atitude?
Peguei meu computador e pesquisei sobre o assunto, “preso no tempo”, “Dé Jàvu”, “Vivendo o mesmo dia repetidas vezes”, não achava nada muito concreto nem esclarecedor, até que encontrei um site que me chamou atenção. Lá haviam relatos de pessoas que diziam ter passado pelo mesmo problema, comecei a buscar mais sobre o assunto, procurei saber como quebrar este ciclo que se repetia dia após dia, mas parecia impossível.
            “Constantes e Variáveis” era o que a maioria dos sites diziam, aparentemente um dia poderia ser idêntico ao outro, mas sempre haveria um que poderia variar e ser diferente em algum aspecto, como universos paralelos, dimensões paralelas. Falando de uma maneira mais simples era como se eu vivesse várias versões de mim mesmo, como no dia em que cheguei atrasado e recebi a reclamação.
Isso ocorreu duas vezes da mesma maneira e no mesmo horário, mas no terceiro dia eu mudei tudo e aconteceu uma “variável” e não só recebi a reclamação como também fui demitido, isso quer dizer que o dia em questão poderia ser idêntico ao anterior ou simplesmente variar também.
De qualquer maneira as únicas coisas que não variavam eram: eu estava preso em uma terça feira, dia 12, dia dos namorados, e sempre acordava na minha cama às 07h58min e no fim do dia a garota morria às 22h17min, isso nunca mudava.
- Deve haver alguma ligação. Aquela garota... Ela deve ter grande importância nesse meu dilema.
Pensava no que fazer para impedir que ela se suicidasse, minha tentativa de chegar antes dela falhou por minha incompetência, eu tinha que tentar de novo, sóbrio desta vez, e ficar escondido, e quando ela passasse por mim eu a agarraria e a impediria de pular, era isso que ia fazer.
- Me esconderei perto da ponte em um lugar que eu passe por despercebido.
Decidi não ir trabalhar, passaria o dia pesquisando mais sobre o assunto, talvez pudesse me ajudar em alguma coisa, sentei na varanda do prédio, coloquei o computador no meu colo e ali permaneceria o resto do dia. Perguntava-me o que teria acontecido se eu fosse trabalhar, recebi uma ligação, era da empresa, pensei em não atender, mas foi no automático acabei atendendo.
- Alô?
- Lucas! É da Tech, onde você esta?
Era uma voz feminina, seria Walesca? Não parecia sua voz, ela tinha uma voz que me causava náuseas, eu demorei a responder, pensei na resposta, apesar de que não fazia diferença alguma.
- Eu... (Tosse) Estou adoentado... Não vou trabalhar hoje (Tosse). Com quem eu falo?
- Aqui é a Michele do RH. O que você esta sentindo?
- Febre... (Tosse) Diga ao senhor Castanhari que eu voltarei amanhã e com o relatório pronto. Vou (Tosse) aproveitar o dia para concluí-lo.
- Ok. Avisarei sim. Melhoras.
Assim que ela desligou dei um breve sorriso e joguei o celular de cima do prédio, ouvi ele se espatifar no chão, decidi sair um pouco, desci as escadas e fui em direção ao centro da cidade, enquanto eu caminhava, observava as pessoas ao meu redor, eu sabia que naquele mesmo horário no dia seguinte, eles estariam fazendo e falando as mesmas coisas.
Uma senhora atravessa a rua, um homem levava consigo um buquê de flores, parecia animado, deveria ser pra alguma pretendente, na praça estava acontecendo um evento de doação de sangue, dois homens tentam levar um piano para dentro de um prédio, só naquele momento eu percebi o quanto aquela cidade tinha vida, tantas possibilidades, muito que fazer, muito que conhecer.
Sentei-me em um banco próximo a sua estátua, comecei a pensar novamente naquela garota, Clara, me perguntava o motivo pelo qual ela decidiu tirar a própria vida. Ela não respondia a essa pergunta, parecia a angustiar mais ainda, mas naquele dia eu iria salvá-la e torcer para isso me livrar daquele pesadelo.
Um sorveteiro passou do meu lado, comprei um sorvete e fiquei observando tudo ao meu redor, comecei a memorizar caso meu plano não desse certo, eu voltaria lá no dia seguinte, na verdade, mesmo se desse certo sentia vontade de voltar ali.
- Bom dia senhor. Gostaria de comprar minhas rosas? Pra dar a sua namorada. Perguntou uma velha senhora com uma aparência amigável.
- Não minha velha não tenho namorada. Não teria pra quem entregar à rosa.
- Mas pode encontrar alguém hoje. Afinal hoje é dia dos namorados.
-Não, não. Obrigado.
- Vamos lá. O dia pode te reservar surpresas.
- Eu sei exatamente tudo que vai acontecer no meu dia. Ele será igual ao de ontem e igual ao de amanhã, só com leves mudanças...
- Não fale assim meu garoto. Nós devemos viver um dia de cada vez. O ontem já virou passado, o amanhã é uma incerteza e o hoje você constrói no agora.
Ao ouvir isso fiquei bastante pensativo, ela tirou uma de suas rosas do seu cestinho e colocou sobre meu colo, deu um sorriso amistoso e foi embora, olhei para aquela rosa no meu colo, peguei e joguei no vaso de lixo ao meu lado.
- O que mais quero é me livrar deste maldito dia! Maldito dia dos namorados!
No fim do dia, caminhei em direção a ponte, poderia ter pegado um taxi, mas preferia ir andando, ainda era cedo, eu andava distraído pensando no meu plano de surpreender Clara e impedi- la, acabei esbarrando em um homem que segurava um copo de café que caiu sujando toda a sua roupa.
- Seu desgraçado! Olha o que você fez! Como vou trabalhar assim?! Eu tenho uma reunião importantíssima ainda hoje!
- Cara me desculpa, eu...
- Desgraçado! Berrava ele enquanto me empurrava.
- Calma cara! Foi um acidente...
- Terei que voltar pra casa trocar de roupa! Meu discurso está ensopado de café!  Se você soubesse o quão longe do trabalho eu moro não me mandava ter calma! Seu desgraçado! Terei que ir agora e retornar o mais rápido possível. Droga! Saia da minha frente! Exclamava ele me empurrando novamente.
Ele proferia diversos palavrões contra mim, eu fiquei meio envergonhado, ele jogou o copo vazio em mim e entrou em seu carro, me segurei pra não rir e segui meu caminho, ao chegar à ponte, me sentei em um banco próximo e esperei, sabia mais ou menos de onde ela viria, apenas aguardei ela passar para assim agarra-la e impedir o maior erro de sua vida.
- Dessa vez eu não irei falhar! Dizia a mim mesmo.
A noite logo chegou, mas o tempo parecia não passar, ainda eram 20h40min eu precisava esperar mais, a rua começava a esvaziar, as pessoas voltavam para suas casas, as lojas se fechavam, eu não entendia por que, afinal ainda era cedo, mas todos os dias eles fechavam as nove horas da noite, o restaurante no qual fiquei no outro dia também estava fechando, eu estava nervoso, meus pés ficaram dormentes, minha boca seca, eu estava mais determinado do que nunca, não tirava os olhos da esquina de onde Clara sempre surgia correndo.
O tempo demorou, mas passou, já era hora, 21h58min, ela iria surgir a qualquer momento correndo desesperada, fiquei a postos logo na esquina pronto para agarrá-la, respirei fundo, já estava quase na hora, de repente ela surgiu correndo, fui a sua direção para agarrá-la.
- O quê?! Solte-me! Solte-me! Socorro! Socorro! Gritava ela se debatendo e tentando se livrar de mim.
- Calma! Eu só quero ajuda-la! Calma Clara!
- O quê?! Como sabe meu nome?! Quem é você?! Socorro! Alguém!
- Calma! Tudo será esclarecido. Só fique aqui até às 22h17min.
- Seu maníaco! Maldito! Me solta!
- Me desculpe Clara! Mas eu não posso!
- Me... Solta! Exclamou chutando minhas partes baixas.
A dor foi tanta que acabei caindo e consequentemente soltando-a, ela aproveitou para correr, logo eu levantei e corri atrás dela, mesmo com dificuldade.
- Clara! Não! Volte aqui! Eu só quero te ajudar!
- Me deixa em paz! Dizia ela correndo.
Mas ela não corria em direção a ponte, saiu correndo pela rua deserta, eu corria atrás dela mas ainda doía muito.
- Clara! Pare! Eu olhei para o relógio, 22h08min, eu estava um pouco aliviado, estávamos nos afastando da ponte, tinha certeza que dessa vez eu tinha a salvo.
- Socorro! Socorro! Gritava ela.
- Clara! Por favor! Escute-me!
A rua estava vazia, como todas as outras noites, ela cansou, estava parando de correr, eu também estava cansado, mas minha determinação era tanta que eu não parava de persegui-la, se alguém víssemos achariam que eu era um pervertido atrás de uma pobre garota, me sentia mal por isso, mas era para o próprio bem estar dela, olhei novamente para o relógio já eram 22h12min olhei para trás, a ponte já estava longe, parei de correr.
- Está feito. Está salva.
Ela também parou de correr no meio de uma encruzilhada entre ruas, ela olhou pra trás, viu que eu já não a perseguia mais, estava ofegante assim como eu.
- Quem... É você? Por que esta atrás de mim?
- Não se preocupe. Não te perseguirei mais. Já te impedi.
- Me impediu?
- Sim. Eu sei o que você iria fazer Clara, sei que queria pular daquela ponte.
- Como... Você sabia? Mas como? Você me conhece?
- Não... Não conheço sua história, mas já sabia o final dela. Olhei mais uma vez o relógio. 22h15min.
- O quê?
- Consegui! Pensei aliviado.
- Por que você...
Ela não pode concluir a pergunta, pois algo trágico e inacreditável aconteceu, algo que eu não esperava, o destino mais uma vez caçoava de mim, como se estivesse impondo sua soberania, me mostrando quem estava no controle, eu apenas vi seu corpo ser arremessado por um carro em alta velocidade que capotou varias vezes.
- Nãaaaaaaaaaaaao! Gritei com todas as forças.
Corri em direção ao corpo dela, ela estava completamente ensanguentada, ajoelhei perto dela, não tinha coragem de toca- la.
- Não... Não, não, não não, não. Clara!
Ela ainda estava viva, seus olhos estavam abertos e manchados com seu sangue, ela tentava dizer alguma coisa.
- Isso... Dói... Eu... Não queria dor... Eu... Só queria... Que fosse rápido... Mas dói tanto...
- Me perdoa Clara... Não era pra ser assim... Eu não consegui conter as lágrimas.
- Alguém... Faz parar... A dor...
- Calma. Eu vou ligar para ambulância... Procurei meu celular no bolso, mas lembrei que o havia jogado de cima do prédio.
- Droga!
Olhei para o carro, e meus olhos pareciam queimar quando eu percebi que conhecia aquele carro, levantei e fui em direção a ele, estava capotado e amassado, agachei e caí pra trás ao ver que o motorista era o homem no qual eu havia esbarrado mais cedo e derramado café em sua roupa. Ele estava morto, me lembrei das palavras dele, como ele estava apressado e disse que iria voltar o mais rápido possível, por isso estava em alta velocidade, olhei para o corpo da Clara, ela olhava pra mim, seus olhos esbugalhados e sem vida, eu não queria mais ver aquilo, olhei para o relógio, 22h17min.
- Não... Nãaaaaaaaaaaaaao! Gritava tapando meus olhos.
Ao abrir os olhos, eu comecei a chorar, pois estava na minha cama, no meu quarto e na minha casa mais uma vez, o destino era cruel e implacável, mesmo eu tendo impedido que a Clara se jogasse da ponte, ela morreu do mesmo jeito, de uma maneira ainda mais cruel e no mesmo horário, eu chorava como um bebê recém nascido, meu celular começou a tocar, minhas lágrimas encharcavam meu lençol.
- Perdoa- me. Perdoa- me... Eu murmurava em prantos.
Então, sem nenhum motivo aparente, me lembrei da frase que aquela velha senhora havia me dito no parque, “Nós devemos viver um dia de cada vez. O ontem já virou passado, o amanhã é uma incerteza e o hoje você constrói no agora”, eu não podia desistir se consegui impedir que ela se jogasse da ponte, poderia impedir qualquer coisa, afinal eu era sua única chance, chorar não adiantava nada, mesmo não tendo certeza que ajudando- a resolveria meu problema, eu tinha que faze- lo, pois quem mais o faria? Iria pensar em outro plano, algo mais bem elaborado, sem falhas, sem imprevistos e principalmente... Sem variáveis.

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