Avisos:

Já tentou ser feliz hoje? O que está esperando? Não espere a felicidade bater na sua porta, saia a procura dela.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Em um piscar de olhos - Capítulo III



Era difícil de acreditar, mas era verdade. Eu estava novamente em meu quarto, deitado em minha cama, peguei o celular, olhei as horas, 07h58min, se em dois minutos minha mãe me ligasse, eu teria certeza absoluta de que era novamente dia 12, terça - feira, minhas mãos suavam, não conseguia levantar da cama, segurava meu celular com cuidado, parecia até que eu tinha medo dele, medo de que tocasse e me sentenciasse a reviver aquele mesmo dia mais uma vez, meus pensamentos se voltaram para aquela garota, novamente eu falhei em tentar salvá-la, me perguntava se naquele dia em questão eu conseguiria.
O celular tocou, eu não fiquei surpreso, não me assustei, apenas atendi.
- Oi mãe.
Comecei a ouvir todo aquele sermão da minha mãe pela terceira vez, mas eu não falei nada, eu nem estava ao menos ouvindo, eu só queria sair daquele pesadelo, o barulho da reforma do meu vizinho não me incomodavam mais, levantei, fui tomar um banho, fiquei alguns minutos debaixo do chuveiro pensando.
- Hoje vai ser tudo diferente.
Tomei meu café, vesti meu paletó e fui trabalhar, ao abrir a porta, lá estavam os moveis do meu vizinho.
- Oi vizinho, desculpa pela bagunça, prometo que no fim do dia arrumo tudo.
- Faça como quiser Gordon.
Ele começou a falar tudo àquilo que eu havia escutado no dia anterior, mas apenas ignorei e desci as escadas, comecei a reparar nas pessoas, observava o que elas estavam fazendo, e aí àquela maldita sensação de Dé Jàvu tomava meu interior. Enquanto caminhava pelo pátio do prédio, ouvia as mesmas conversas, olhava para rua movimentada e via os mesmos carros, as mesmas pessoas apressadas e indiferentes.
 Um senhor saindo da padaria com um saco de compras, uma mulher de vermelho falando no celular; um homem sem querer derruba todos os seus papéis no meio da rua; dois senhores de idade discutindo sobre o jogo de domingo. Um homem coloca uma bicicleta em frente à sua loja e cola nela uma placa de ‘vende-se’; um homem abaixa o vidro de seu carro e grita” Caio! Peça a Sheila pra me ligar!.
Já havia visto tudo aquilo duas vezes, mas só naquele instante eu havia notado. Levantei o braço para chamar o taxi.
- Taxi!
Eu já sabia que seria o mesmo taxi, o mesmo motorista, assim que ele parou, entrei no carro, ele perguntou meu destino, me fazia a mesma pergunta, qual seria o meu destino afinal? Viver para sempre naquele disco arranhado? Repetindo aquele maldito dia de novo e de novo? Ver aquela pobre garota morrer e não poder fazer nada? Eram centenas de perguntas sem respostas passando pela minha cabeça, o taxista ainda aguardava ainda a minha resposta.
- Hei senhor? Pra onde?
- Qual o seu nome? Perguntei a ele.
- Luiz. Pra onde quer ir senhor?
- Pra onde eu quero ir? Quarta - feira.
- O quê?
- Você me perguntou pra onde eu quero ir. Eu quero ir pra quarta - feira.
- Não entendi senhor. Por favor, preciso saber seu destino.
- Eu também queria saber. Se você descobrir, por favor, me avise.
- Está de brincadeira com a minha cara? Desce do meu taxi agora!
Ele não podia me ajudar, ninguém podia, eu já estava ficando louco com aquilo, nada mais fazia sentido na minha vida, mas naquele instante eu decidi fazer tudo diferente.
- Ok. Pegarei outro taxi.
Já estávamos no engarrafamento, desci do taxi dele e entrei em outro logo a direita.
- Senhor, estou preso nesse engarrafamento, vai demorar um pouco, pra onde o senhor quer ir? Perguntou o taxista.
- Avenida Bandeirantes, Prédio Techmatica.
- Pode demorar um pouco...
- Sem problemas. Eu chegarei as 09h18min de qualquer maneira. Respondi indiferente.
- Tudo bem então...
Fiquei recostado na janela do carro, observando a rua, as pessoas, seus afazeres, seus rostos, suas vidas, eu as invejava, pra elas era um dia qualquer, tudo que estavam fazendo era pela primeira vez, eu só conseguia pensar se conseguiria desta vez chegar a tempo na ponte.
- Já comprou o presente para namorada senhor? Perguntou o taxista enquanto dirigia.
- O quê? Perguntei distraído.
- Perguntei se o senhor já comprou o presente pra sua namorada?
- Presente? Namorada?
- Sim. Afinal hoje é dia dos namorados, estou aqui pensando o que dar a minha esposa.
- Pra mim dia dos namorados é todo dia.
- É o senhor tem razão. Todo dia devemos tratar nossas mulheres como se fosse dia dos namorados, seu pensamento está correto.
- Não você não me entendeu...
- Sabe, você tem toda razão. Eu só me lembro de presentear minha esposa nesse dia ou em outra data comemorativa como aniversário, natal... Mas eu devo fazer diferente, ela é uma ótima pessoa sabe...
Só naquele momento lembrei que aquele fatídico dia, era dia dos namorados, até ali eu não tinha dado a mínima, na verdade ainda não dava. O que me intrigava era o fato disso ter alguma relação com a minha situação, seria uma praga? Uma maldição jogada por uma ex-namorada vingativa? Se fosse eu estaria em apuros, pois não tinha uma ex-namorada satisfeita, todas me odiavam.
- E então? Já comprou o presente pra ela? Perguntou
- Pra quem?
- Pra sua namorada ora.
- Não tenho namorada e nem quero ter, quero que todas vão para o inferno!
O taxista ficou meio surpreso e não disse mais nada depois disso, olhei para o relógio, eram 9 horas.
- Falta muito? Perguntei.
- Não senhor, logo na próxima avenida. É esse transito.
Seria possível que eu chegaria mais atrasado que nos outros dias? Eu podia descer ali e ir correndo como fiz da outra vez, mas não iria ser escravo do destino de novo, não estava mais me importando, queria quebrar aquela repetição maldita, se tivesse que chegar um minuto a mais, eu estaria feliz.
- Chegamos senhor.
Paguei a corrida e desci do taxi, olhei para o relógio, 09h12min eu já estava atrasado, de qualquer maneira eu receberia o mesmo sermão do meu chefe, não fazia diferença, eu só queria mudar o meu destino.
- Feliz dia dos namorados senhor. Tenha um bom dia. Disse o taxista indo embora.
Eu apenas o ignorei, caminhei em direção a porta do prédio, todas aquelas pessoas ocupadas, aquele barulho, aquele cheiro, tudo me incomodava, fui em direção ao elevador despreocupado, já eram 09h17min enfim eu iria quebrar o ciclo, quando eu estava prestes a entrar no elevador, um homem entrou comigo, todos os dias eu entrava sozinho, fiquei feliz em fazer mais uma coisa diferente.
- Bom dia. Disse ele.
- Bom dia. Respondi.
- Você é secretario do Castanhari?
- Sim sou.
- Soube que ele está em um caso muito complicado. Processaram a empresa não foi?
Meu chefe era advogado da empresa em que trabalhávamos, além de pegar casos por fora, mas no momento ele estava tentando lidar com um processo que havia sido iniciado contra a empresa, o relatório que ele me impôs era sobre tal caso.
- Sim. Mas não posso falar sobre isso.
- Entendo... Bem... Esse é meu andar. Até mais.
Assim que ele saiu fiquei pensativo, me perguntava se iria encontrar meu chefe assim que ele abrisse a porta, eu torcia para que não acontecesse isso.
Assim que a porta se abriu, não havia ninguém, olhei para o relógio, 09h25min, dei um sorriso, eu estava muito atrasado, porém mais atrasado do que o dia anterior, pra mim não fazia diferença alguma, abri a porta do escritório e fui em direção a minha mesa, não tinha visto meu chefe ainda.
- Esta tudo bem... Pensei.
- Isso são horas senhor Lucas? Perguntou Walesca vindo em minha direção.
- Ah... Bem... Eu...
- Meu pai quer você em sua sala imediatamente! Disse ela me dando as costas.
Levantei despreocupado, eu já sabia tudo que iria ouvir, fui até a sala dele, abri a porta lentamente, não estava com medo, nem sequer nervoso, apenas sentei, ele estava de costas para mim, segurava um de seus enfeites de mesa, uma esfera de metal, a qual ele jogava para cima repetidas vezes.
- São 09h28min senhor Oliveira. Até onde sei o horário estipulado para o senhor comparecer a sua mesa são as nove em ponto...
O horário que ele citava era diferente, e seu tom de voz também estava bastante diferente, mas não liguei, estava feliz por isso.
- Me desculpe senhor, eu não farei...
- Você está demitido senhor Oliveira.
- O quê... Mas... Fiquei sem palavras.
- Por favor, compareça ao RH para assinar os papéis. Era apenas isso, queira se retirar.
- Mas senhor eu... Foram só 10 minutos de diferença!
- Dez minutos? Você faltava ás aulas de matemática? Você se atrasou 28 minutos senhor Oliveira, e isso para mim é inadmissível!
- Mas... Então dezoito minutos o senhor aceitaria?
- Do que esta falando? O que eu aceito é pontualidade. E isso é algo que o senhor não possui. Agora por favor, queira se retirar da minha sala.
Fiquei perplexo, minhas pernas tremeram, eu não sabia o que dizer, tudo estava realmente diferente, tinha perdido meu emprego por ter chegado dez minutos de diferença dos outros dias, o destino realmente estava brincando comigo.
- Já terminamos senhor Oliveira. Por favor, se retire.
- Sim... Senhor.
Saí da sala, e ao abrir a porta, todos estavam me observando, com um olhar de pena, aquilo me angustiava me sentia preso em uma caixa, era uma sensação claustrofóbica, peguei minhas coisas, não fui ao RH, apenas abri a porta e fui embora.
Eu havia percebido que sim eu podia mudar os acontecimentos, porém eles podiam tomar outras proporções, e se eu não tivesse chegado atrasado? E se eu chegasse na hora certa? Mas como podia ter certeza que seu eu chegasse as 09h18min não aconteceria à mesma coisa? Será que foi apenas por que cheguei atrasado? Ou poderia ser por eu ter feito mais algo de diferente? Eram muitas perguntas, e mais uma vez, todas sem resposta.
Entrei no elevador, eu ainda não conseguia assimilar toda aquela situação, mas ai eu pensei, se meus dias se repetem que diferença faz? Amanhã eu posso chegar na hora certa, ou posso também chegar mais atrasado ainda, ou melhor, posso nem vir trabalhar! Não faz diferença, tudo iria se repetir, eu não tinha amanhã! O amanhã não existia mais!
Eu saí do elevador com um sorriso no rosto, se aquilo aconteceu, significava que nesse dia eu podia salvar aquela garota, era isso que eu iria fazer, decidi ir direto para a ponte e ficar lá ate anoitecer  e impedir que a garota chegasse lá, eu iria segura-la antes que subisse na lateral da ponte assim não correria mais perigo.
- Sim! É isso que eu farei! Hoje ninguém vai morrer na minha frente! Ninguém!
Peguei um taxi e fui para a Bandeirantes assim que cheguei, procurei algum lugar pra passar o dia ali, havia um restaurante próximo a ponte. Sentei em uma das mesas e pedi uma bebida, estava bastante movimentado. Aquela rua é irreconhecível a noite, totalmente vazia e sombria, comecei tomando uma cerveja, era um dia quente, além de eu estar precisando, me perguntava se eu conseguisse salvar a vida dela eu teria um amanhã, se aquela garota era a chave para a minha liberdade.
Comecei a reparar a quantidade de pessoas naquele lugar, haviam vários casais por ali, comemorando o dia dos namorados, esse maldito dia no qual eu estava preso, pessoas felizes, sorridentes, malditos, pareciam rir de mim, caçoar de com aqueles sorrisos irritantes, eu só queria ter o direito de ter um amanhã.
O dia passava, eu ainda estava sobre aquela mesa, já havia bebido três ou quatro garrafas, não me lembrava, não fazia diferença, eu apenas mantinha meus olhos fixados naquela ponte, pedi mais uma garrafa, acabei apagando sobre a mesa, tinha bebido demais.
- Senhor. Senhor acorde. Estamos fechando. Senhor?
Alguém estava me acordando, era o garçom, o restaurante estava se fechando, já era noite, o tempo havia passado tão rápido, me sentia tonto, eu estava alcoolizado, olhei assustado para o relógio, eram 21h10min fiquei aliviado ao saber que não havia perdido à hora.
- Senhor. Estamos fechando. Aqui sua conta. Disse ele me entregando a conta.
- Desculpe... Eu... Apaguei. Nunca mais tinha bebido assim.
- Entendo. Mas estamos fechando.
Tirei o cartão de credito do bolso, paguei a conta e sai do restaurante cambaleando, estava quase na hora da garota aparecer, fui em direção a ponte, recostei-me no lugar onde ela costuma subir, e lá fiquei esperando, olhei para o relógio, mal conseguia ver as horas, eram 21h15min meus olhos estavam pesados, eu realmente havia bebido demais, eu precisava me manter acordado, tinha que a impedir, eu havia conseguido mudar meu destino naquele dia, eu tinha que mudar o destino dela!
- Eu... Não vou... Deixar ninguém morrer... Eu...
Acabei dormindo novamente, o tempo passou, eu fiquei ali encostado como um mendigo, as pessoas passavam me olhando com desprezo, não fazia diferença pra mim, eu continuava a dormir, só que o tempo passou sem eu perceber.
Clara correu em direção a ponte, eu ainda dormia profundamente, ao me ver recostado na ponte, ela parou, olhou para o lado direito logo a minha frente, ela subiu na lateral, eu abri meus olhos lentamente, consegui ver um tanto que vagamente alguém na minha frente, assim que percebi que era ela tentei levantar imediatamente, mas eu corpo estava pesado, o álcool havia me derrotado.
- Não! Não... Faça... Isso... Eu mal conseguia falar.
Ela olhou pra trás, ficou me olhando por alguns segundos, ela novamente não me reconhecia, havia o mesmo olhar tristonho em sua face, o destino mais uma vez havia me pregado uma peça, por eu ter ficado ali parado a esperando, ela foi para o outro lado da ponte, se eu não tivesse adormecido, se eu não tivesse bebido.
- Clara... Não! Espere!
- Fique longe! Eu vou pular! Não duvide de mim!
- Clara... Não faça isso.
- O quê? Como sabe meu nome?
- É única coisa que sei como você. Eu... Não quero ver você morrer de novo.
- Fique longe. Você está bêbado senhor. Vá pra sua casa. Deixe-me em paz.
- Não. Eu não vou deixar! Corri em sua direção.
Ela pulou, eu estava longe demais, nem ao menos pude tocar em seu corpo, minhas pernas não obedeciam, a culpa era minha, e se eu tivesse feito tudo diferente? Cheguei até a lateral da ponte, olhei para baixo e vi seu corpo ensanguentado.
- Clara! Desculpe-me! Desculpe-me... Eu prometo... Não vou descansar até mudar... O meu e o seu destino! Eu prometo!

Novamente abri meus olhos dentro do meu quarto, na minha cama, esmurrei a parede, me sentia um lixo, um imprestável, no que eu estava pensando? Deixei me levar pelo ego, achei que era o senhor do tempo, o senhor do destino, mas eu estava errado, eu poderia ter feito diferente, se podia mudar o meu destino, eu iria fazer o mesmo com o dela, estava determinado há dedicar meu dia a isso, eu tinha um plano.
 
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