Avisos:

Já tentou ser feliz hoje? O que está esperando? Não espere a felicidade bater na sua porta, saia a procura dela.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Em um piscar de olhos - Capítulo IX




Fui em direção ao prédio da Clara, eu já não balançava mais sobre a bicicleta, eu estava finalmente pegando o jeito, breve não precisaria mais daquelas rodinhas. Encostei-me em um poste e fiquei esperando ela voltar do mercado, não iria ao seu encontro, havia esquematizado um plano que poderia dar certo, todos os dias eu repetiria apenas aquilo que desse certo, não insistiria no erro, iria tentar coisas novas, caso não desse certo, descartaria e tentaria uma nova.
- Ela vai dobrar a esquina em 5, 4, 3, 2, 1...
Assim que ela apareceu eu me escondi, aguardei ela entrar, entrei no pátio sem ser notado e novamente esvaziei os pneus de sua bicicleta, voltei para meu cantinho do outro lado da rua e aguardei, logo mais ela desceu e notou que a bicicleta estava com os pneus murchos.
- Droga!
Atravessei a rua normalmente, me aproximei do porteiro, fingi que não estava vendo nada.
- Bom dia. Você sabe me informar se existe algum apartamento para alugar nesta rua?
- Bom dia. Sim claro, soube de um prédio no fim da rua, acho que ainda esta disponível.
- Ah obrigado. Irei verificar.
Olhei vagarosamente para ela, mexia nos pneus procurando uma solução.
- Bom dia. Algum problema moça?
- O quê?
- Precisa de ajuda?
- Não. Está tudo bem.
- Hum... Problema com a bicicleta?
- Essa droga estava com os pneus cheios mais cedo! Deve ter sido algum desses garotos mal criados.
- Hum... Parecem vazios. Disse apertando os pneus.
- Isso eu já percebi. Sherlock.
- Estou dizendo que estão vazios, não furados. É só enche-los novamente.
- Claro. Vou usar todo ar dos meus pulmões pra enchê-los e ter um aneurisma cerebral logo em seguida.
Eu dei um sorriso, tinha que admitir que foi engraçado.
- Não, não. Isso não é necessário. Se quiser minha ajuda, é só aguardar um instante.
- Como você pode me ajudar?
- Espere aqui.
Ela cruzou os braços, olhou pra mim desconfiada, virou o rosto para o lado.
- Ok.
Eu sorri e atravessei a rua, peguei a bombinha de ar que comprei na loja do seu Domingos mais cedo, esperei 5 minutos para não voltar imediatamente e ela desconfiar, assim que retornei, me agachei próximo à bicicleta.
- Viu? É só encher agora.
- Tem certeza que não estão furados?
- Sim. Veja por si mesma.
Ela apertou os pneus, estavam cheios novamente, meu plano estava dando certo.
- Legal... Obrigado.
- Não há de que. Prazer. Lucas.  Falei estendendo a mão.
- Clara... Disse ela apertando-a.
- Lindo nome. Bem, estou indo. Tenha um bom dia. Disse dando-lhe as costas.
- Você mora por aqui? 
Dei um pequeno sorriso e me virei.
- Ainda não. Estou conhecendo o bairro.
- Hum...
- Estou à procura de um guia. Poderia ser você, o que acha?
- Não obrigada. Não sirvo pra essas coisas.
- Há vamos lá.
- Estou indo trabalhar.
- Ótimo. Acompanho você, assim conheço o bairro.
- Bem... Eu não acho que...
- Vou pegar minha bicicleta. Um momento.
Atravessei a rua, montei na bicicleta e fui até ela, assim que observou as rodinhas ela deu um sorriso.
- Pra que isso? Perguntou ela rindo.
- Ainda estou aprendendo.
- Não sabe andar de bicicleta?
- Como eu disse. Estou aprendendo. Andar com você pode ajudar.
- Sei... Tudo bem então.
Fiquei muito feliz dela ter aceitado, ela foi na frente, o porteiro olhou pra mim desconfiado, pisquei os olhos e ele sorriu.
- Está se mudando pra cá?
- Sim. Aparenta ser um bom lugar para se morar.
- É...
- Vi que tem um lago por perto.
- Sim! É lindo!
- Sim é.
Estávamos nos aproximando do semáforo, eu já sabia o que fazer, fui na frente, subi a calçada e caí próximo a loja, a mulher e o garoto vieram até mim para me ajudar.
- Você está bem? Perguntou Clara segurando uma gargalhada.
- Estou. Pode rir. Todo mundo ri.
- Tome cuidado garoto. Disse a mulher me ajudando a levantar.
- Obrigado. Olhei para o relógio, era à hora exata do carro surgir.
- Cuidado! Gritou Clara vendo o veículo desgovernado.
Puxei a mulher e o garoto, o carro entrou com tudo dentro da loja, mas ninguém se feriu.
- Nossa! Disse Clara abismada.
- Todos estão bem?
- Sim! Obrigado! Se não fosse o senhor...
- Mãe! O garotinho estava assustado.
- Está tudo bem agora.
- Você está bem? Perguntou Clara.
- Estou. Foi por pouco.
- Por bem pouco! Aquele carro veio com tudo! Bons reflexos os seus... Disse ela ainda surpresa.
- Está todo mundo bem não é?
Olhei ao redor pra ter certeza que ninguém havia se machucado, o trânsito havia parado, isso não mudava, mas nem a Clara e outras pessoas corriam perigo.
- Eu preciso ir! Vou me atrasar!
- Pra onde está indo?
- Pro trabalho. Já disse...
- Me refiro à rua. Talvez eu possa te acompanhar.
- Avenida Rosa Maria.
- Que coisa. É caminho para onde vou. Posso te acompanhar?
- Bem... Ela olhou para as rodinhas da minha bicicleta.
- Não se preocupe, não vou te atrasar.
- Tudo bem.
Saímos juntos pela ciclovia, ela pedalava rápido, era difícil de acompanhar, parecia estar fugindo de mim, olhou para trás, parecia conferir se eu ainda estava lá.
- Se quiser que eu vá mais devagar...
- Não, não. Está tudo bem.
Ela olhou para as rodinhas novamente e sorriu, eu apenas observava o vento batendo sobre seu rosto e deixando seus cabelos dourados flutuar lentamente.
- Você trabalha no quê? Perguntei me aproximando ao lado dela.
- Sou... Balconista.
- Legal. Finalmente eu sabia no que ela trabalhava.
- E aí. Já escolheu o presente?
- Que presente?
- Hoje é dia dos namorados ué.
- Não tenho e nem quero ter namorado. Respondeu ela friamente.
- Nossa! Por quê? Uma garota tão bonita...
Ela freou bruscamente. Eu me assustei e quase caí ao frear, ela olhava pra mim com raiva, me perguntei se tinha falado algo de errado.
- Olha aqui. Se você veio com esse papinho pra cima de mim só querer me cantar, está perdendo seu tempo garoto! Não tenho interesse nenhum em relacionamentos, então se for isso, pode ir embora.
- Não. Você entendeu errado... Eu...
- Acha que sou boba? Com esse papo “Não sei andar de bicicleta” eu permiti você vir comigo pra ver até onde você iria com essa história!
- Mas eu não sei mesmo.
- Por que não vai embora. Estou farta de pessoas aproveitadoras como você! Disse ela saindo pedalando rapidamente.
- Droga! Espera Clara!
- Me deixa em paz!
Fui atrás dela, pedalei o mais rápido que podia, uma das rodinhas estava muito gasto, ela desceu uma ladeira, gelei, não tinha muita sorte com ladeiras, mas eu não ia perdê-la de vista. Desci com o coração na mão, a rodinha direita quebrou e a bicicleta desceu em alta velocidade, passei pela Clara como uma bala, ela freou e me viu descer sem direção, fechei os olhos, pensei que ia morrer me choquei com um banco e por sorte caí em um arbusto, estava tonto, mal conseguia abrir os olhos, eu a vi no meio da ladeira parada, tudo parecia rodar, minha visão estava embaçada, de repente ouvi uma voz distante, eu conhecia aquela voz, mas não me lembrava de quem era.
- Lucas... Lucas....O seu tempo... Está acabando...
Eu sentia um cheiro de rosas, eu via alguém na minha frente, não conseguia ver nitidamente. De quem era aquela voz?

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