Avisos:

Já tentou ser feliz hoje? O que está esperando? Não espere a felicidade bater na sua porta, saia a procura dela.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Em um piscar de olhos - Capítulo V



Eu não tinha vontade de levantar, me sentia culpado, era tudo minha culpa, se eu tivesse a segurado por mais tempo, se não tivesse derrubado café na roupa daquele homem ele não teria que voltar para casa e trocar de roupas, assim consequentemente não voltaria em alta velocidade por aquela rua, desse modo não teria atropelado a Clara.
Isso não aconteceu nos dias anteriores, me perguntava, se isso não tivesse acontecido, se talvez eu conseguiria salvá- la, faltava tão pouco, a imagem de seu corpo sendo arremessado não saía da minha mente, suas palavras de dor e angústia, seus olhos vazios a sem vida olhando para mim, como se me culpasse.
- Não vou desistir. Não posso desistir.
Levantei, minha mãe continuava a ligar, mas eu não queria atender, estava farto de ouvir as mesmas coisas, tomei um café, troquei de roupa e saí, não queria ir trabalhar novamente, fui direto pra ponte.
- Preciso analisar cada detalhe, pensar nas possibilidades positivas e negativas, após o dia de ontem, se é que existe um “ontem” para mim, eu percebi que a Clara não necessariamente morrerá caindo da ponte, pelo jeito ela tem que morrer, mas se for isso que está me prendendo nesse pesadelo, tenho que encontrar uma forma de impedir.
Ao chegar à ponte, sentei em um banco e fiquei analisando o local, criei várias possibilidades em minha mente, pensei em várias estratégias, caso uma não desse certo, tentaria outra no dia seguinte, e assim por diante, cada vez mais eu conseguiria chegar à perfeição, só não podia desistir.
- Por que você quer morrer Clara? Eu me perguntava.
Não podia deixar de notar as pessoas, os mesmos rostos, as mesmas vozes, eu não queria ir pra casa, decidi ficar ali até anoitecer, tinha que por em prática o meu primeiro plano.
Já eram nove da noite era hora de dar início, peguei meu celular e liguei para a polícia.
- Olá, eu quero evitar um suicídio.
- Suicídio? Quem é a possível vítima senhor? Perguntou a atendente.
- Eu sei que uma mulher irá tentar se jogar da ponte Bandeirantes às 22h00.
- O senhor conhece a vítima? Tem informações sobre ela?
- Apenas sei que se chama Clara.
- Como o senhor sabe que ela quer se matar?
Essa pergunta ficou difícil de responder, eu não poderia abrir a boca e dizer “Eu sei por que eu já a vi se matar quatro vezes” era ridículo.
- Eu... Ouvi ela dizer que se mataria.
- Quando?
- Hoje. Por favor, vocês têm que impedir. Venham as 22h00 na ponte Bandeirantes, não se atrasem! Desliguei.
A polícia era minha primeira alternativa, eu não tinha certeza que viriam, mas pelo menos tinham que tentar, eles poderiam ser mais eficazes do que eu.
A noite chegou, fiquei escondido aguardando a chegada da polícia, assim que eles chegaram eu fiquei esperançoso, talvez aquela fosse a solução, era apenas uma viatura, desceram três policiais, um aparentava ser o mais velho, parecia ter cerca de 40 anos, o outro era mais jovem, porém obeso, e o terceiro era magro e tinha uma fisionomia nada amistosa, ficaram olhando ao redor próximos a ponte, eram 21h58min estava quase na hora.
- Eu disse. Deve ser outro trote. Disse um dos policiais.
- O cara no telefone disse às 22h00, se der 22h01min e a tal garota não aparecer, vamos embora.
- Isso é perda de tempo. Disse o terceiro entrando na viatura.
Clara apareceu da mesma maneira, surgiu correndo da esquina, assim que viu os policiais na vigiando a ponte, ela parou, parecia assustada, um deles percebeu a sua movimentação.
- Deve ser ela! Hei! Moça!
Ela deu dois passos pra trás e saiu correndo na direção aposta a ponte, imediatamente dois deles correram atrás dela, o mais velho e o gordo, aquele na viatura tentava ligar o carro, eu fui atrás deles, tinha que ter certeza que nada sairia errado.
- Hei menina! Pare! Só queremos ajudar!
Clara corria sem direção, parecia procurar um lugar pra se esconder, eu observava tudo de longe, não queria me envolver, talvez a minha presença só atrapalhasse, eu deveria ter feito isso desde o começo. Ela entrou em um prédio velho, os policiais entraram logo em seguida, olhei para o relógio, 22h14min, eles tinham que conseguir capturá-la, a viatura parou em frente ao prédio, o policial saiu do carro e pegou seu walktalk da cintura.
- Onde vocês estão? Acharam a garota?
- Sim! Ela subiu as escadas! Estamos logo atrás! A desgraçada corre muito!
- Vocês que estão fora de forma. Disse ele rindo.
Eu podia ouvir tudo de onde estava, eu fiquei nervoso, tinha que fazer alguma coisa, corri em direção ao policial.
- O que eles estão fazendo?! Vocês têm que a impedir! Gritei.
- Hei! Parado! Quem é você?! Exclamou o policial apontando a arma pra mim.
- Calma! Foi eu que liguei para a polícia avisando. Responde levantando os braços.
- Sei... Como se chama?
- Lucas. Por favor, vocês têm que ajuda-la.
- Estamos tentando. Ela que saiu correndo.
- Ela só está com medo.
- Hei; Marcão, Pedro! Como esta a situação ai em cima? Perguntou ele falando no walktalk.
- Estamos... A garota... Havia muita interferência na transmissão.
- Droga de interferência. Repitam!
- O quê? O que esta havendo? Perguntei.
- Fique na sua aí! Deixe as mãos onde eu possa ver! Gritou ele.
- Eu só quero que vocês a salve. Apenas isso.
- Marcão! Qual a situação aí?
- Não... Espere...
- O quê?! Eu não consigo entender.
- Ela vai...
-O quê?
De repente, algo cai sobre a viatura, o impacto foi tamanho que tanto eu quanto o policial caímos no chão, o capô da viatura ficou totalmente amassado, fiquei meio desnorteado, tinha estilhaços de vidro no chão, ainda no chão eu olhei para o relógio, 22h18min, fui olhando aos poucos para viatura, eu já sabia, era o corpo dela, mais uma vez ela se jogou, mais uma vez eu tinha falhado.
Acordei, era mais uma terça-feira, não sabia de onde tirar forças para levantar, meu plano deu errado de novo, mas eu não podia desistir, dia após dia, eu tentava, de diferentes formas, na primeira semana eu tentei ser radical, tentei sequestra-la, deixa-la inconsciente, bloqueei o caminho até a ponte, fiz diversas coisas, tudo sem sucesso, pois a Clara sempre morria de alguma maneira.
Algumas inexplicáveis, na segunda tentei pedir ajuda primeiro, chamei os bombeiros, a S.U.A.T, em algumas das variáveis eles não apareciam, achavam que era trote, no dia seguinte eu inventava uma historia mais convincente e eles acreditavam, mas o resultado era o mesmo, Clara morria de diversas formas, atropelada, queimada, asfixiada, e eu sempre vendo tudo e cada vez mais desejando acabar com o seu sofrimento.
Mas só causava ainda mais, eu não via, quando eu nem me dei conta, já haviam se passado 10 meses, pra mim não havia mais alternativas, possibilidades, planos ou motivação, decidi tentar pela ultima vez.
Esperei na ponte, assim que ela correu até a lateral da ponte, eu me aproximei.
-Clara...
- O quê? Como você...
- Só me escute. Sim eu sei seu nome. Sei que você quer se jogar desta ponte, você deseja a morte, parece desejar isso mais do que qualquer outra coisa nesse mundo, e me parece que o destino também deseja isso pra você. Por mais que eu tente, você sempre morre na minha frente, todos os dias, todos os malditos dias.
- Do que você está falando? Não se aproxime de mim! Eu vou pular! Não duvide de...
- Eu sei que você pulará você sempre pula, você sempre morre. E eu sempre tento te salvar, mas eu não consigo... As lágrimas tomaram meu rosto.
- Por que... Você esta chorando?
- Clara. Por favor... Eu te peço... Não faça isso... Eu não suporto mais te ver morrer. Disse ajoelhado.
- Você é louco... Deixe-me em paz. Disse ela olhando pra baixo.
- Me diz... O que eu tenho que fazer? Fala-me! Gritei.
- Não há nada que você nem ninguém possam fazer.
- Por quê?! Por quê?! Mim diz! Então eu ficarei pra sempre preso a este mundo? Eu já fiz de tudo Clara! De tudo! Mim diz por que você deseja tanto a morte?!
- Por que é a única coisa que vai me libertar. Disse ela pulando da ponte.
Decidi não tentar mais, já que era pra ser assim que fosse, decidi tentar tirar proveito daquela maldição, já que eu estava fadado a repetir o mesmo dia, que cada um deles eu fizesse tudo que eu sempre quis, comia das melhores comidas, frequentava o melhor lugar, me envolvia com todo tipo de mulher, loira, ruiva, morena, estourava o limite do meu cartão de crédito, afinal não fazia diferença, fui preso diversas vezes, aproveitei tudo que aquela cidade tinha a oferecer, mas no fim do dia, eu sempre sentia aquele vazio, aquela angústia que tomava meu peito, todos os dias eu pensava na Clara, todos os dias eu tinha que me conter, a vontade de tentar salva-la tomava meu ser, mas eu havia desistido, passaram-se semanas, meses, anos, eu já havia feito de tudo, mas me sentia como se não tivesse feito nada, pois eu pensava nela dia após dia.
Em mais uma terça-feira, acordei no meu quarto, na minha cama, e tudo continuava sempre igual, eu já sabia cada detalhe, conhecia cada rua, pessoa, caminhos, possibilidades, mas nada adiantava, pois o meu destino não me pertencia. Eu estava preso aquele dia, condenado a viver para sempre naquele ciclo interminável, talvez a Clara tivesse razão, talvez a morte fosse mesmo uma libertação, levantei da cama e ao invés de descer as escadas, eu subi, fui para o topo do prédio, não tinha mais vontade de viver, se fosse pra sair daquele pesadelo, que assim seria.
- Desculpe mãe, pai... Desculpe Clara. Mas eu não suporto mais.
Do topo do prédio eu olhei para a cidade, nunca mais eu a veria, nunca mais eu sentiria o seu cheiro, seus sons, suas ruas, casas, lojas e pessoas, eu estava farto, era hora de por um fim naquela angústia.
- Olhei para baixo. A queda era mortal. Pelo menos eu não sentiria dor, apesar de que nenhuma dor se comparava a dor de viver o mesmo dia por 5 anos.
Pulei, via cada vez o chão ficar mais perto, fechei os olhos, eu havia desistido de tudo, acabei me tornando igual à Clara, talvez finalmente eu havia a entendido, não havia tempo para arrependimentos, apenas permaneci de olhos fechados.
Mas o destino não me deu as chaves daquela prisão, a morte não me libertou, eu abri os olhos em meu quarto, na minha cama e na minha casa, eu não podia morrer, mas também não podia viver, pois aquilo não era mais vida. Tentei me matar de diversas formas, mas sempre voltava ao ponto inicial, eu era imortal? Até que um dia eu cansei de tentar, permaneci o dia inteiro na minha cama, chorando, perguntando a Deus o que ele queria de mim, eu não suportava mais, por 2 meses eu não saí de casa, não tentava mais salvar a Clara, eu não comia, não bebia, não levantava da cama.
Um dia me levantei, fui até ao parque, sentei no banco e fiquei olhando ao redor, sabia a ação de cada pessoa, o que eles iriam dizer, fazer e aonde iriam ir, tudo pra mim não era novidade, eles só teriam destinos diferentes se eu interferisse de alguma forma, eu me questionava se eu era o destino, mas não, eu não era, como poderia ser se não tinha controle sobre o meu próprio.
- Bom dia senhor, gostaria de comprar ás minha rosas? Perguntou aquela velha senhora, a qual eu não via o rosto há 5 anos.
- Não... Eu sei que é dia dos namorados, mas eu não tenho namorada.
- Vamos lá! O dia pode te...
- Não o dia não tem surpresas pra mim. Eu sei tudo que vai acontecer nele.
- Não fale assim garoto, nós devemos...
- Viver um dia de cada vez. O ontem já virou passado, o amanhã é uma incerteza e hoje se constrói no agora. Eu já sei, a senhora já me disse.
- Como... Eu disse? Quando? Nós nos conhecemos?
- Sim e não.
- Desculpe senhor, essa velha é meio lenta. Pode me explicar?
- Quer mesmo saber?
- Sim, claro!
- Sente-se.
Assim que ela se sentou do meu lado, comecei a contar a ela tudo desde o inicio, fui claro e sincero, sabia que ela não acreditaria, mas estava disposto a provar caso ela duvidasse, eu nunca tinha cotado a ninguém, afinal, que diferença ia fazer se alguém soubesse, ninguém podia me ajudar.
- Então é isso... Sei que é difícil de acreditar. Mas essa é a minha historia, a minha maldita história.
Ela ficou com uma expressão de espanto, olhava pra mim fixamente, ao seu redor, sorriu e disse:
- Então você vive todos os dias a mesma coisa... Sabe o que vai acontecer agora?
- Sim.
- Aquele homem ali. O que vai acontecer com ele?
- O celular dele vai tocar em 3,2,1...
O celular tocou e o homem atendeu, a velha levou as mãos a boca, ficou impressionada, olhou pra mim sem acreditar.
- Quer que eu mostre mais? Aquela mulher vai procurar um espelho em sua bolsa, um garoto vai surgir de bicicleta na esquina agora, o carro vermelho vai buzinar três vezes, o dono da banca de jornal vai mudar a placa laranja por uma branca e...
- Chega! Eu já entendi.
- Esta vendo? Hoje pra todas as pessoas desta cidade é só mais uma terça feira, dia 12, dia dos namorados, mas eu já vive este dia mais de mil vezes.
- Por que você desistiu da garota?
- O quê?
- Por que desistiu de tentar salva-la?
- Por que não havia o que fazer. Ela sempre morria, não há nada que eu possa fazer pra impedir.
- Sei... Pelo que entendi você sempre ao fim do dia tentava de algum jeito salva-la, mas sem sucesso.
- Exato.
- Tentava impedir que ela morresse, procurava mil maneiras de o fazê-lo. Mas sabe meu garoto...
- Sim. Eu tentei de tudo que você possa imaginar.
- Será mesmo? Você tentava mudar o destino dela... Mas já tentou mudar a vida dela?
- Como assim?
- Por quem ao invés de tentar procurar formas de impedir sua morte, você não tentou dar motivos pra ela viver?
- Mas como?
- Por que ao invés de tentar salva-la no fim do dia. Você não faz isso assim que ele começa?
- O dia... Constrói-se no agora... Só naquele momento eu entendi.
- Procure saber sua historia, sua vida, sua motivação. Não desista dela, não desista de você. Às vezes nós tentamos e falhamos mil vezes, mas se um dia desistimos iremos passar o resto da vida na dúvida se poderíamos ter acertado uma única vez.
- Mas o que devo fazer? Por onde devo começar?
Ela tirou uma rosa do cesto e colocou no meu colo.
- Comece plantando amor. Boa sorte garoto.
Ela se levantou, pegou seu cesto, e eu fiquei ali parado pensando, talvez ela tivesse razão, peguei a rosa, fixei meus olhos pra ela, e senti depois de todo aquele tempo um sentimento que eu já havia perdido há muito tempo, esperança.
Levantei, peguei um taxi e fui para o trabalho, eu só tinha um nome, mas era tudo que eu precisava, na empresa havia o setor da previdência, poderia acessar aos computadores e procurar todas as Claras que morassem nas áreas próximas a ponte, queria o endereço, precisava saber onde ela morava.
Aquela senhora tinha razão, não era no fim do dia que eu deveria salvá-la, e sim no começo dele, foi preciso 3 dias procurando por ela no banco de dados da previdência, eu não tinha muito tempo para procurar, eu tinha que esperar uma brecha do dono do computador ir ao banheiro para eu poder usar, além de haverem muitas Claras, tive que olhar foto por foto, mas enfim, no terceiro dia eu encontrei, Clara Pinheiro Neves, esse era seu nome, gravei o endereço em minha cabeça.
Em mais uma terça-feira acordei, mas essa seria diferente, eu iria finalmente conhecer a Clara, algo que eu deveria ter feito há muito tempo, levantei, me arrumei e fui até o seu endereço, assim que cheguei fiquei de longe observando, era um pequeno prédio, tinha apenas 3 andares, a casa dela era a do meio, eu não sabia o que dizer, ela supostamente nunca tinha me visto antes, não me conhecia, não sabia quem eu era, mas eu tinha que conhecê-la.
Talvez só assim impediria seu fim, entrei no prédio, subi as escadas muito nervoso, parei em frente a sua porta, ergui o braço pra tocar a campainha, mas estava tremendo, respirei fundo, tinha que tomar coragem, me perguntava do porque de tanto nervosismo, eu só queria conversar com ela, saber o que se passava, tentar convencê-la a não cometer aquela loucura.
- Posso ajudar? Ouvi sua voz atrás de mim.
Quando olhei pra trás, ela estava me olhando segurando uma sacola de compras, fiquei sem reação, minha garganta travou, meu coração parecia que ia estourar meu peito, fazia muito tempo que eu não havia visto seu rosto, escutado sua voz, olhado em seus olhos.
- Oi? Posso ajudar?



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