Avisos:

Já tentou ser feliz hoje? O que está esperando? Não espere a felicidade bater na sua porta, saia a procura dela.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Em um piscar de olhos - Capítulo VI




Ela olhava pra mim com aqueles lindos olhos, esperava a minha resposta, parecia confusa, afinal era a primeira vez que ela me via, apesar de já ter visto seu rosto centenas de vezes, respirei fundo, as pernas não me obedeciam, não sabia por que isso estava acontecendo, eu estava tão determinado, e logo que a vi um arrepio tomou meu corpo inteiro.
- Desculpe senhora. Estou à procura de um apartamento para alugar. Foi à primeira coisa que veio em minha mente, apesar de ter sido ridículo.
- Bem, este aqui não está para alugar, por que eu moro aqui. Disse ela desconfiada.
- Oh que coisa. Desculpe. Mas a senhorita pode me ajudar? Sabe de algum apartamento disponível por este bairro?
- No fim da rua você verá um prédio azul, lá existem vários disponíveis.
Ela tirou uma chave da bolsa, pôs o saco de compras em um dos braços e abriu à porta, um gato branco parecia a esperar na porta.
- Tenha um bom dia senhor. E boa sorte em sua procura. Disse ela fechando a porta.
- Droga!
Ela era tão áspera, não parecia gostar muito de conversar, eu conseguia ver a tristeza em seus olhos, isso nunca mudava. Perguntava-me ainda do por que aquela linda garota se matava no fim do dia. Desci as escadas, atravessei a rua e decidi ficar observando-a de longe.
Durante aqueles cinco anos, eu nunca tinha vindo naquele bairro, era um local humilde, não tinha nada demais, por esse motivo nunca chamou minha atenção, jamais imaginaria que ela morava ali. Olhando no mapa, a ponte de onde ela se jogava todas as noites era apenas 10 minutos dali, eu já deveria ter ido a sua procura há muito tempo.
Após alguns minutos, ela desceu novamente, pegou uma bicicleta rosa em frente ao prédio e saiu pedalando, eu precisava ir atrás dela, procurei um taxi mas não havia nenhum, eu corri mas não consegui alcança-la, acabei a perdendo de vista.
Voltei para o prédio dela, decidi permanecer ali até seu retorno, acabei passando o dia inteiro escondido em uma loja de brinquedos. Anoiteceu, ela finalmente apareceu, mas estava de pé, me perguntei onde será que foi parar a bicicleta dela, tentei me aproximar, eu estava indeciso, não sabia o que fazer se tentava uma aproximação novamente.
Mas o dia havia passado já era 19h40min, logo mais ela iria para aquela maldita ponte e jogar dela a sua vida, assim que estava atravessando a rua ela saiu do apartamento e caminhou até o fim da rua, decidi segui-la.
- Pra onde ela está indo? Seria pra ponte? Perguntei-me olhando para o relógio.
Não, ainda era cedo, ela caminhava a passos longos, eu não tinha coragem de abordá-la mais uma vez, o que eu diria? “Oi Clara meu nome é Lucas, estou aqui para impedir que você se mate esta noite” isso era ridículo e absurdo. Já caminhávamos há 20 minutos, percebi que ela estava indo em direção ao lago, a cidade onde morávamos era rodeada de lagos, aquele era só mais um de tantos.
Ao chegar ela parou em frente ao lago, observava a água que refletia a escuridão do céu, de longe eu via suas lágrimas deslizarem pelo seu rosto delicado, senti um aperto no peito, decidi ir até ela e tentar convencê-la a não cometer nenhuma loucura, ou poderia agarrá-la e deixa-la presa até passar das 22h17min.
Mas então me lembrei das palavras daquela velha senhora, não era dessa maneira que eu a salvaria, eu já havia tentado centenas de coisas e sempre acontecia alguma coisa que levava a sua morte, não seria diferente daquela vez, eu não tinha que mudar o destino dela no fim do dia, e sim no começo dele.
Ela enxugou suas lágrimas e voltou para casa, passou o resto da noite lá, quando foram exatos 21h48min ela saiu de casa correndo com aquele pijama, a rua dela estava quase vazia, as poucas pessoas que ali estavam apenas a ignoraram, eu já sabiam onde aquilo ia dar, senti aquela imensa vontade de ir atrás dela e tentar mais uma vez impedi-la, mas poderia apenas causar mais sofrimento ainda. Não era assim que eu a salvaria, voltei pra casa, o tempo todo eu olhava para o relógio, antes de chegar em casa já eram 22h16min, eu parei, sabia que não era necessário mais andar, pois em um minuto eu estaria na minha cama.
- Não vou descansar até conseguir tirar a tristeza dos seus olhos Clara.
Ao abrir meus olhos eu levantei imediatamente da minha cama, me arrumei e fui em direção a casa dela, iria gravar seus horários, cheguei lá as 8h28min, ela estava voltando do mercado com a sacola de compras, decidi fazer mais uma tentativa.
- Bom dia senhorita, precisa de ajuda?
- Não, obrigado.
- Tem certeza? A sacola parece estar pesada.
- Tenho sim. Mas obrigada.
- A senhora mora aqui?
- Sim por quê? Perguntou ela desconfiada.
Notei sua desconfiança, e com razão, um estranho chegar assim perguntando tal coisa, eu me achei um idiota naquela hora.
- Não, nada. Caso à senhora precise de ajuda... Eu... Sou novo no bairro. Moro no fim da rua, prédio azul.
- Sei... Eu... Lembrarei-me disso. Disse ela mais desconfiada ainda.
Nunca me achei tão idiota, ela subiu as escadas apressada, eu a assustei, dar de bom samaritano não adiantaria, descartei aquela possibilidade, fui até final da rua, eu sabia que a qualquer momento ela sairia de bicicleta, eu poderia assim saber para que lado ela fosse.
Após alguns minutos, ela veio pedalando, fiquei apostos, iria atrás dela, correria o mais rápido possível, assim que ela passou, eu a persegui, mas ela olhou pra trás e me viu, ficou assustada e pedalou mais rápido, não pude alcançá-la de novo, perseguição a pé também era descartável.
No dia seguinte eu peguei um taxi e mandei-o esperar em frente a casa dela, pagaria a mais para ele aguardar, assim que ela saiu de bicicleta, fomos logo atrás, parecia tudo bem, mas era um bairro cheio de becos.
Ela entrou em um deles, onde o carro não entrava, desci imediatamente, mas ela já estava longe. Por uma semana eu tentei alcançá-la, mas sempre dava tudo errado, um dia ao sair do meu apartamento, vi aquele senhor que todos os dias colocava uma bicicleta em frente a sua loja e prendia nela uma placa de “vende-se”, encontrei ali a solução para o meu problema.
- Bom dia senhor, quanto custa esta bicicleta?
- São R$ 100,00.
- Vou querer.
Eu nunca tinha montado em uma bicicleta, mas não podia ser tão difícil, era só subir e pedalar, montei meio desengonçado, o velho deu uma leve risada.
- É que eu... Estou sem prática.
Subi tentei dar algumas pedaladas, cai meio metro depois.
- O senhor está bem? Parece que não sabe bem o que esta fazendo. Perguntou ele sorrindo.
- Não. Eu estou bem. Só preciso me aquecer.
- Tem certeza?
- Tenho. Subi mais uma vez e cai de novo.
- Qual seu nome senhor? Perguntou o vendedor.
- Lucas.
- Bem, Lucas. Posso te fazer uma pergunta?
- Eu já sei. Não eu não sei montar em uma bicicleta.
- Eu tenho algo aqui que pode lhe ajudar.
Era ridículo, constrangedor, infantil, patético, mas era a minha única alternativa, o vendedor instalou duas rodinhas traseiras na bicicleta, aquilo era pra uma criança de 10 anos, mas eu não tinha escolha, fiquei completamente constrangido.
- Isso é ridículo.
- Ou é isso ou beijar o asfalto de novo.
- Tudo bem. Respirei fundo e dei um impulso.
Sai pedalando, balançava bastante, mas eu consegui, graças aquelas rodinhas ridículas, dez metros depois acabei batendo em uma caixa de correio. De taxi eu demorava 20 minutos para chegar a casa dela devido ao transito, de bicicleta talvez eu pudesse chegar mais cedo.
- Droga. Isso é complicado.
Fui esbarrando nos carros parados, acabei ligando dois alarmes e quebrando um retrovisor, um total desastre, fui devagar até o bairro da Clara, não era muito longe, mas devido a minha total falta de prática acabei demorando meia hora, cheguei a tempo de encontrá-la saindo de casa, poderia finalmente ver aonde ela ia todos os dias, ou seja, todas as terças.
Perguntava-me se ela tinha namorado, afinal era dia dos namorados, montei na bicicleta e fui atrás dela, eu ainda estava balançando muito, não conseguia a acompanhar o seu ritmo, as rodinhas faziam com que a bicicleta tremesse bastante, olhei para o relógio, 08h40min nessa hora eu estaria no taxi indo em direção ao trabalho, fazia anos que eu não voltava lá, nunca terminei o relatório do senhor Castanhari, mas aquilo não era relevante no momento.
Ela parecia distraída, acabou atravessando a rua com o sinal aberto, eu vi um carro vindo em sua direção, meu coração gelou.
- Clara! Cuidado! Exclamei aflito.
Ela olhou para trás e me viu, o carro desviou bruscamente e bateu no pneu traseiro de sua bicicleta levando-a ao chão, o motorista se chocou contra um hidrante e todos os carros tiveram que parar causando um enorme engarrafamento.
Desci da bicicleta imediatamente, corri até ela e a levantei.
- Você está bem?
Ela estava assustada, olhou para sua bicicleta empenada e amassada, mas ela parecia bem, só estava em choque.
- Eu... Estou bem. Respondeu com uma voz branda.
- Garota maluca!      Olha não se atravessa o sinal verde assim! Gritava o motorista.
- Cara, fica na sua. Você estava em alta velocidade. Se quiser confusão, chame o guarda de trânsito.
Ele ficou calado, o barulho das buzinas era ensurdecedor, a levei para a calçada, notei que seu joelho estava ralado.
- Você se machucou.
- Não é nada. Obrigado por ter me ajudado.
- Você tem que tomar mais cuidado, esses motoristas não respeitam ninguém.
- Eu estava... Distraída.
Olhei para o engarrafamento, senti uma sensação estranha, decidi olhar para o relógio, eram 08h50min percebi que aquele engarrafamento era justamente em que eu ficava preso todos os dias para ir trabalhar. Isso significa que todos os dias ocorriam aquele acidente e era a Clara que o causava, desde o inicio eu estava ligado a ela, aquilo me deixou perplexo.
- Ei. Como sabe meu nome?
- O quê? Perguntei ainda surpreso com a situação.
-Perguntei como sabe meu nome?
- Eu?
- Sim. Você gritou meu nome pouco antes do carro vir em minha direção.
- Bem... Eu...
- Fala. Como sabe meu nome?


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