Avisos:

Já tentou ser feliz hoje? O que está esperando? Não espere a felicidade bater na sua porta, saia a procura dela.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Em um piscar de olhos - Capítulo VII



Tinha poucos segundos para encontrar uma resposta plausível, era difícil raciocinar com aqueles lindos olhos azuis me fitando como se fossem atravessar a minha alma.
- Acho melhor sairmos daqui. Vou pegar sua bicicleta. Disse levantando.
- Você ainda não respondeu a minha pergunta. Disse ela cruzando os braços.
- Nossa. O estrago foi feio. Tentei mudar de assunto.
A bicicleta dela estava com o pneu traseiro contorcido, não iria mais a lugar algum. Ela teve muita sorte de só ter tido aquele arranhão no joelho, me perguntava se todos os dias aquilo acontecia exatamente igual, será que sempre o carro desviava?
Cheguei à conclusão que sim, pois ela sempre parecia perfeitamente bem quando se jogava da ponte, pelo menos fisicamente sim, mas e o arranhão? Será que sempre esteve lá? Eu nunca tinha reparado, possa ser por que o pijama o cobria, mas e se minha presença ali tenha o causado? Será que minha interferência mudou os acontecimentos? Constantes e variáveis...
- Ei! Você não me respondeu.
- Desculpe. Estava distraído. Tirei a bicicleta do meio da rua.
- Como você sabe meu nome?
- Ouvi alguém falar seu nome mais cedo.
- Quem?
- O porteiro do seu prédio.
- O porteiro? O senhor Manoel?
- Sim. Vi ele lhe dar bom dia.
Parcialmente não era mentira, ele realmente dava bom dia a todos do prédio, mas eu nunca tinha o ouvido dizer bom dia a ela.
- Sei... Ela parecia não ter acreditado muito.
- Sua bicicleta já era, precisa ser levada a uma oficina.
- Hum... Sussurrou ela tomando a bicicleta de minhas mãos.
- Pra onde vai?
- Não é de sua conta.
- Nossa! Eu acabei de salvar sua vida. (Apesar de achar que minha presença ali não mudaria a conclusão dos acontecimentos)
- E daí? Não pedi sua ajuda.
- Nossa! É isso que recebo em troca?
- O que queria? Um prémio Nobel? Um Oscar por melhor atuação?
- Um “obrigado” seria o bastante.
- Não tenho nada o que agradecer. Acredite... Você não me ajudou. Disse ela com um olhar depressivo e uma voz muito triste.
Eu havia entendido o que ela quis dizer, sabia que o que ela desejava era a morte, eu só queria saber o por que.
- Como assim?
- Adeus. Disse ela arrastando a bicicleta.
- Espere! Peguei a minha e fui atrás dela.
- Para de me seguir.
- Não estou te seguindo.
- Sim está! Você me seguiu desde a minha casa! Pensou que não percebi?
Meu coração quase pulou pela boca, fiquei gelado, ela era muito esperta.
- Do que você esta falando, eu não estava te seguindo garota, só estou passeando de bicicleta, é crime fazer isso?
Ela olhou para as rodinhas da minha bicicleta e deu um minucioso sorriso, foi a primeira vez em 5 anos que eu havia visto algo assim.
- Passeando? Sei...
- Bem... Eu estou praticando. Só isso. Minhas bochechas ficaram vermelhas naquela hora.
- Vai continuar me seguindo?
- Você é muito mal criada. Não vou te deixar em paz até dizer.
- Dizer o que?
- Aquela palavrinha mágica.
- Qual? Vai se foder?
- Nossa! Além de mal criada é boca suja.
- Olha aqui garoto...
- Meu nome é Lucas.
- Não me interessa não te perguntei nada.
- Pra onde você esta indo?
- Não te interessa!
- Só vou te deixar em paz até dizer.
Ela parou, respirou fundo, parecia brava, eu estava feliz, preferia sua cara de brava a seu olhar de tristeza.
- O-bri-ga-do. Sussurrou ela.
- O quê? Não ouvi direito. Pode repetir.
- Claro. Vá à merda! Disse ela deixando a bicicleta no chão.
- De nada. Vai deixar sua bicicleta aqui?
- Não preciso mais dela. Não precisarei mais...
- Pra onde você vai?
- Que garoto chato! Vou trabalhar! Deixa-me em paz.
Eu estava fazendo progresso, pela primeira vez em muito tempo, eu estava animado.
- No que você trabalha?
A rodinha da bicicleta se prendeu em um buraco, acabei me desequilibrando e cai, a queda foi muito feia e desastrosa, mas valeu muito a pena, pela primeira vez, eu vi e ouvi aquilo que se tornaria música para os meus ouvidos, eu a ouvi rir.
- Está tudo bem aí? Perguntou ela ainda rindo.
Eu não respondi, apenas fiquei olhando pra ela, deslumbrado com a beleza do seu sorriso, eu poderia cair mil vezes, me estabacar inteiro se em troca conseguisse aquele simples sorriso.
- Oi? Você está bem garoto? Desculpa por rir, é que...
- Não... Está tudo bem... Perfeitamente bem.
- Vou pegar um ônibus. Não da pra ir de pé. Adeus. Disse ela correndo em direção a um ônibus que estava de partida.
-Não! Espera!
Ela entrou, fiquei no chão olhando o ônibus partir, não consegui saber onde ela trabalhava, mas estava feliz, tinha conseguido algo muito melhor, fazê-la sorrir.
Levantei, me perguntava se aquilo significava alguma coisa, será que era o bastante para fazê-la mudar de ideia? Mudar os acontecimentos do seu dia mudava alguma coisa no final dele? Eu precisava saber.
Voltei até a casa dela, me sentei na banca de jornal, esperei o dia passar ansiosamente para que eu pudesse vê-la voltar, sabia que ela voltaria mais tarde e que iria ao lago. Era minha chance de conversar mais com ela, tentar arrancar mais alguma informação importante, quem sabe motivações para seu ato final.
O dia demorava a terminar, acabei cochilando, a banca de jornal ficava em frente ao prédio dela, adormeci sobre o balcão, o jornaleiro me acordou.
- Ei! Aqui não é lugar pra dormir. Disse ele.
- O quê Desculpe... Que horas são?
- Oito da noite.
- Droga! Levantei afoito.
Perdi a hora, ela saia para o lago as sete e quarenta, montei na minha bicicletinha e fui em direção ao lago.
- Droga. Ainda deve dar tempo.
O caminho era cheio de curvas, as rodinhas da bicicleta me faziam perder muita velocidade, decidi me livrar delas, desci e arranquei ambas, subi novamente, me desequilibrei e cai, tentei três vezes até conseguir me manter, só que pra minha surpresa havia uma ladeira logo à frente, acabei descendo ladeira abaixo em direção ao lago, eu gritava como um louco.
- Fodeu!
Acabei descendo direto e cai no lago junto com a bicicleta, assim que emergi pude ver a Clara, ela estava olhando para o lago, e dessa vez eu via nitidamente que ela segurava uma foto, não consegui ver isso no outro dia, pois eu estava atrás dela, fiquei me perguntando de quem era aquela foto, de repente ela olhou para minha direção, imediatamente mergulhei.
Ela olhou ao redor e foi embora, saí do lago encharcado, a bicicleta já era definitivamente eu precisava aprender a andar com ela, Clara havia voltado pra casa, fui logo atrás à espreita. Eu iria tentar fazer alguma coisa, apesar de ter tentado conversar com ela durante o dia, os acontecimentos voltaram a se repetir.
Ela permanecia com os olhos cheios de lágrimas, aquela tristeza ainda tomava seu coração, eu precisava saber o porquê, mas eu tinha medo, temia interferir mais e causar uma morte ainda mais dolorosa a ela, eu ainda não estava pronto, e se eu piorasse tudo? Lembrei do arranhão no joelho dela, talvez aquilo fosse um sinal, eu não deveria interferir.
Então ela parou, olhou para o chão, agachou e pegou algo, fui para o outro lado para ver melhor do que se tratava, eram as rodinhas da minha bicicleta. Ela parecia confusa, olhava ao seu redor, temi que estivesse me procurando, me escondi atrás de um poste, quando olhei novamente ela tinha sumido.
- Pra onde ela foi?
Fui em direção a sua casa, assim que cheguei eu a vi na janela do prédio, rapidamente me escondi, ela estava chorando, fechou as janelas e apagou as luzes. Eram 20h38min decidi permanecer ali, talvez isso significasse alguma coisa, esperei, fiquei aguardando ela sair, torci para que não saísse, para que ficasse em casa naquele dia, mas às 21h48min ela saiu, assim como no outro dia, isso não mudou, fiquei desapontado, ela estava com o mesmo pijama, o mesmo olhar triste, fui atrás dela, não podia permitir, eu queria arriscar.
- Vou conversar com ela!
Assim que ela alcançou a ponte, eu gritei.
- Clara! Não faça isso!
- Você... O que esta fazendo aqui? Perguntou ela chorosa.
- Por favor. Escute-me, não precisa fazer isso. Seja lá o seu motivo. Não faça isso. Olhei para o relógio, 22h14min.
Eu tinha três minutos para convencê-la.
- Vai embora. Isso não tem nada haver com você.
- Você esta muito enganada. Tem tudo haver comigo.
- Não! Não tem! Não se aproxime... ou eu pulo! Não duvide de mim!
- Eu não duvido... Só... Escute-me... Pelo menos uma única vez.
- Vai embora...
- Por favor! Não precisa ser assim! Você é jovem! Tem uma vida pela frente!
- Você não pode entender.
- Me faça entender! Retruquei dando um passo a frente.
- Não se aproxime! Gritou ela levantando um dos pés.
- Calma.
- Por que esta aqui? Vá embora!
Olhei para o relógio, eu não havia percebido os minutos passarem, mas algo chamou minha atenção, já eram 22h17min10s, dez segundos haviam se passado! Isso nunca tinha acontecido! Eu fiquei paralisado, meus olhos se encheram de lágrimas, minha garganta travou, olhei para ela abismado.
- Clara... Eu...
- Desculpe. Disse ela se preparando para pular.
- O que faria você desistir de morrer?!
Ela respirou fundo, olhou para baixo, o vento levantou seus longos cabelos loiros, olhou para mim e estirou os braços.
- Um motivo para permanecer viva. Respondeu ela caindo para a morte.
Ela pulou, eu corri para tentar agarrá-la, mas não consegui, olhei para o relógio e eram 22h18min, acordei na minha cama novamente, eu não acreditava o que aquilo significava? Eu havia ganhado um minuto amais, mas ainda sim ela pulou o que eu fiz de errado? O destino estava me dando um sinal? Ou só estava brincando comigo de novo? Seja lá o que tivesse acontecido, era algo grande, pela primeira vez em cinco longos anos eu e ela tínhamos ganhado mais um minuto de vida, preciosos 60 segundos, isso tinha que significar alguma coisa.
- Clara... Eu te darei um motivo para viver.

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