Avisos:

Já tentou ser feliz hoje? O que está esperando? Não espere a felicidade bater na sua porta, saia a procura dela.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Em um piscar de olhos - Capítulo VIII



Levantei da cama, me sentia diferente, era como se todos os meus dias estivessem sendo vistos em preto e branco, em um tom de cinza mórbido e sem vida, mas após aquele dia, eu podia ver uma cor diferente, eu sentia dentro de mim transbordar algo que me proporcionou um belo sorriso, eu já sabia o que era, se chamava esperança.
Meu celular estava tocando, atendi imediatamente.
- Bom dia mãe! Sabe que eu te amo muito? Estou morrendo de saudades!
Minha mãe morava em outra cidade, muito longe de São Paulo, seria impossível para visitá-la, pois demoraria mais de um dia, o que significa que eu acabaria acordando de novo na minha casa, eu sentia muita falta dela, apesar de nós não nos darmos muito bem, ela nunca aprovou minha saída de casa, mas eu a amava muito, a única coisa eu tinha era a sua ligação todas as manhãs.
- Bom dia... Lucas, meu filho, você parece animado. Finalmente encontrou uma namorada?
- Não mãe. Quer dizer... Acho que não. Eu ri.
- Como assim acha? Sabe que dia é hoje?
- Eu sei! Dia dos namorados!
- É dia dos... Sim... Isso mesmo! Ainda bem que você sabe! Então trate de sair e procurar uma namorada!
- Pode deixar mãe! Eu te amo!
- Eu também te amo filho. Você andou bebendo?
- Não mãe.
- Cuidado pra não terminar que nem seu pai!
Meu pai era um homem de negócios muito bem sucedido, porém era viciado em álcool e jogos de azar, acabou em uma clínica de reabilitação.
- Não se preocupe. Vou tomar café agora.
Tomei café sorrindo, tomei banho ainda sorrindo, quando abri a porta lá estavam os móveis do meu vizinho Gordon, assim que ele se aproximou para falar comigo eu o abracei, ele ficou sem entender nada.
- Bom dia... Vizinho. Disse ele sorrindo.
- Bom dia! Lindo dia!
- Desculpe pela bagunça, é que...
- Não! Não! Tudo bem faça o que tiver de fazer! Precisa de ajuda?
- Não, já estou terminando. Obrigado pela compreensão.
- Que nada! Até logo!
Ele coçou a cabeça e ficou me olhando descer as escadas com um sorriso no rosto, eu estava tão feliz, para as pessoas normais, simplórios 60 segundos não passam de um minuto qualquer, mas para mim significava muito, significava tudo! Era um sinal, uma oportunidade, uma chance que o destino havia me dado, talvez finalmente eu pudesse salvá-la.
Fui até a loja em frente ao prédio, me aproximei do vendedor.
- Bom dia senhor...
- Osvaldo. Mas todo mundo nessa rua me chama de Seu Domingos.
- Bom dia Seu Domingos. Quero comprar essa bicicleta.
- São...
- R$100 eu sei, aqui está.
- Obrigado. Como se chama?
- Lucas. Quero aquelas rodinhas ali também.
- A bicicleta não é para o senhor?
- Não... É pra um amigo...
- Sei...
Ele instalou as rodinhas, eu sai empurrando a bicicleta até a esquina, montei nela e sai pedalando em direção a casa da Clara,  todos na rua ficavam me olhando por conta das rodinhas, eu não me importava, eu só queria chegar até a Clara, eu a avistei vindo no fim da rua com a sacola de compras, fui em sua direção.
- Bom dia moça. Precisa de ajuda?
- Não obrigada.
- Parece pesado.
- Posso me virar sozinha.
- Tem certeza? Mora longe daqui?
- Não te interessa.
- Desculpe-me. Não queria parecer intrometido. Só queria ajudar.
Ela entrou no prédio, fiquei do outro lado da rua pensando o que fazer para conquistar sua confiança, ela era muito áspera e parecia um tanto que antissocial, me perguntava se isso estava relacionado ao seu suicídio, provavelmente sim.
Aguardei, eu sabia à hora exata que ela sairia do prédio e pegaria sua bicicleta, tive uma idéia. Fui minuciosamente até a bicicleta dela e esvaziei ambos os pneus, assim ela teria que ir de pé, não sabia qual efeito isso traria,  mas eu tinha que testar, rapidamente voltei para o outro lado da rua, ela desceu linda como sempre, pegou a bicicleta e logo notou que os pneus estavam vazios.
- Que droga!
Atravessei a rua, me aproximei como quem não quer nada, fingi que estava entrando no prédio e olhei para ela.
- Algum problema moça?
- Você de novo. Não tem problema nenhum.
- Me parece que á um problema aí.
- E se tiver? O que você tem haver com isso?
- Eu posso ajudar.
- Não, não pode. Com licença. Disse ela saindo.
- Espere moça. Fui atrás dela.
- Vai me seguir é?
- Eu só quero conversar.
- Não te conheço garoto. Para de me seguir.
Resolvi ser insistente, mas não parecia estar dando muito certo.
- Como se chama?
- Já disse pra me deixar em paz! Disse ela tirando um spray de pimenta da bolsa.
- Uol! Calma aí!
- Sai fora! Não te conheço! Estou avisando!
- Calma.
- Algum problema senhorita Clara? Perguntou o porteiro do prédio que via a cena.
Ela olhou para mim, conseguia ver o quanto estava brava, eu fui um idiota, acabei a assustando, o porteiro era um homem negro alto, aparentando ter seus quarenta anos de idade, eu um pobre magricelo não dava conta.
- Não senhor Manoel. Acho que não tenho problema algum. Tenho? Perguntou ela.
- Não...
- Ótimo. Disse Manoel.
Ela foi embora, fiquei parado olhando ela partir, aquele meu plano não deu muito certo, os dias eram iguais, mas os acontecimentos mudavam conforme as minhas ações, mas eu não podia desanimar, peguei minha bicicleta e a segui sem ela perceber.
Ela caminhava pela calçada a passos longos, parecia apressada, me perguntava se algo aconteceria, olhei para o relógio 08h48min em dois minutos algo poderia ou não acontecer, as regras “constantes e variáveis” se aplicaria.
Ela parou na faixa, aguardou o sinal fechar, parecia tudo normal, mas então o mesmo carro do dia anterior veio em alta velocidade, ultrapassou o sinal vermelho passando pelo mesmo local onde a Clara estaria se tivesse com sua bicicleta, mas como não havia ninguém lá, ele seguiu direto perdendo o controle, acabou se chocando com uma loja de roupas, por pouco não atropelou uma mulher e uma criança que passavam na hora.
- Meu Deus! Fiquei chocado.
Clara levou as mãos a boca, estava atordoada com a situação, o veículo havia passado bem próximo a ela, mas não encostou nenhum centímetro. Corri até o acidente, eu não podia acreditar, o fato dele não ter desviado da Clara ocasionou uma variável e o carro foi em outra direção, ao invés de se chocar com o hidrante que estava do lado direito da rua, ele bateu de frente com a loja do lado esquerdo.
- Isso... Não deveria ter acontecido... Sussurrei.
- Meu filho! Você está bem? Perguntava a mulher abraçando seu filho.
Mudar os acontecimentos não só interferia no destino da Clara, mas também em todos ao seu redor, eu tinha que tomar muito cuidado para não por outras pessoas em perigo, procurei por ela em meio a multidão, quando finalmente a avistei, ela já estava longe, ignorou o acidente e entrou no primeiro ônibus que parou, a perdi de vista mais uma vez.
- Droga!
Voltei para o prédio dela, fiquei esperando, eu tinha que tomar muito cuidado, minha presença interferia diretamente não só na vida da Clara, mas de todos ao meu redor, não queria mais sangue derramado, lembrei daquele homem que morreu ao atropelar a Clara anos atrás, não podia permitir que algo assim acontecesse novamente.
- Vai ficar sentado aí o dia inteiro? Então compre um jornal pelo menos. Disse o dono da banca.
- Oh sim! Tem algum livro?
- Têm sim, vários.
- Me dê o mais longo.
- Hum... O mais longo... Tem esse aqui.
Era um livro relativamente grande, mas a capa me interessou mesmo com aquele ditado “Nunca julgue um livro pela capa” aquela rosa vermelha me chamou atenção, me lembrei daquela velha senhora do parque, o livro se chamava “As escolhas da vida”, comprei e comecei a ler, era um ótimo passa tempo, poderia esperar tranquilamente sem pegar no sono, o dia passou rápido e logo vi Clara chegando, aguardei ela sair e ir em direção ao lago como de costume, quando ela finalmente saiu eu levantei e entreguei o livro ao jornaleiro.
- O livro é seu. Não vai levar?
- Não se preocupe. Amanhã estarei aqui para comprar de novo. Respondi lhe dando as costas.
Ele ficou sem entender, montei na bicicleta e a segui, fui com cautela para não cair novamente, me escondi em um lugar diferente para assim poder vê-la melhor. Nada havia mudado, ela segurava aquela foto e tinha aquele olhar, me perguntava o que eu deveria fazer para mudar aquilo, ela voltou pra casa exatamente como sempre fazia, queria falar com ela, tentar conversar, mas depois do que acontecido, achei melhor não, poderia só piorar as coisas.
Quando ela foi até a ponte eu já estava lá a sua espera, ela parou por um instante de correr e me olhou com surpresa.
- Você? O que faz aqui?
- Hoje não vim tentar te convencer, eu sei que já falhei.
- Falhou? Do que você esta falando?
- Eu já entendi que nada do que eu disser vai mudar sua opinião. Você vai se jogar e vai morrer, se eu tentar impedir você também vai morrer, seja caindo da ponte ou tropeçando em um bueiro e morrendo afogada, nada que eu faça mudará o resultado final, isso o destino já deixou bem claro.
- Você... É maluco...
- O que eu tenho que fazer é te dar um motivo pra não vir até aqui, um motivo para seguir em frente, um motivo pra viver. Mas hoje eu falhei novamente, e minha punição é  ver você morrer mais uma vez. Sei que você não entende o que eu digo, mas saiba de uma coisa, nem que dure uma eternidade, eu vou conseguir.
- Vai embora. Não se aproxime mais! Nem você nem ninguém podem me ajudar! Só me deixe... Eu só quero me livrar dessa dor!
- Eu vou arrancar isso do seu peito. Eu juro! Eu encontrarei o motivo Clara. Nem que para isso eu tenha que tentar e falhar milhares de vezes, eu encontrarei um motivo para você viver.
- Vai embora... Deixe-me sozinha.
- Até amanhã Clara.
- Como você... Eu não tenho amanhã! Gritou ela.
- Eu também não. E não quero ter se você não estiver nele.
Ela olhou pra mim surpresa, seus olhos deixavam claro o quanto ela ficou surpresa, ela não entendia o que eu estava dizendo, olhou para mim completamente confusa.
- Seja lá quem você seja... Obrigado por não desistir de mim. Disse ela pulando da ponte.
Olhei para o relógio, 22h19min30s eu havia conseguido mais de dois minutos, acordei novamente no meu quarto, era mais uma terça-feira, eu sabia o que deveria fazer, a cada dia perdido, cada fracasso se tornaria um aprendizado, desci as escadas, fui até a loja.
- Bom dia senhor Domingos, eu quero comprar essa bicicleta e aquelas rodinhas, aqui esta o dinheiro, fique com o troco.
- Nossa obrigado! Qual seu nome moço?
- Lucas.
- Muito obrigado, tem mais alguma coisa que o senhor deseja?
- Não... Quer dizer... Pensando bem... Tem sim, algo que vai ser muito útil.
- O quê?  
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2 comentários:

  1. Amei a história é fantástica, comecei a ler e não consegui parar, parabéns, acho que estou viciada kk ♡

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