Avisos:

Já tentou ser feliz hoje? O que está esperando? Não espere a felicidade bater na sua porta, saia a procura dela.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Em um piscar de olhos - Capítulo X



Eu escutava aquela voz dizendo meu nome, podia ouvir o som de um ponteiro de relógio, aquele leve cheiro de rosas no ar, a voz estava ficando cada vez mais alta, estava tão tonto que mal conseguia abrir os olhos direito.
- Ei! Acorda! Levanta!
Eu via alguém na minha frente, era apenas uma sombra, um vulto.
- Lucas! Exclamou Clara esbofeteando minha cara.
- Ai! O tapa foi forte, finalmente minha visão voltou ao normal.
- Acorda porra!
- Clara? Ai! Doeu!
Ela estava ajoelhada na minha frente, eu estava caído sobre os arbustos, fiquei surpreso por ela não ter ido embora e me deixado lá.
- Pensei que tivesse desmaiado. Você é maluco sabia.
- E eu pensei que você tivesse ido embora.
- É... E eu ia sim! Mas... Não podia deixar você aí no chão, de novo. Você é mestre em cair. Parecia um sapo quando caiu da bicicleta.
- Como eu disse antes... Ainda estou praticando.
- Você está bem? Perguntou ela sorrindo.
- Acho que sim. Por um momento eu pensei...
- O quê?
- Não... Nada. Você vai se atrasar pro trabalho.
- Ah... Isso. Tem razão. Disse ela levantando.
- Algum problema?
- Não. A partir daqui tomamos caminhos diferentes... Não é? Perguntou ela virando de costas.
- Eu não tenho um caminho certo. Faço meu caminho a cada passo dado.
- Sei... Que filósofo você é.
- Essa se tornou a minha filosofia. Me diz uma coisa... Você estava me falando alguma coisa enquanto eu estava caído?
- O quê? Eu só estava tentando te acordar, você estava viajando na maionese.
- Eu pensei... Ter escutando alguém falar comigo... Senti cheiro de rosas.
- Acho que você bateu a cabeça quando caiu. Não tem rosas por aqui, só arbustos secos.
- Acho que você tem razão. Bem, não quero mais te importunar. Irei me retirar agora. Disse pegando minha bicicleta do chão.
O pneu estava contorcido e o guidão torto, ela não servia mais pra nada, Clara montou em sua bicicleta e pedalou por alguns metros, então parou e olhou pra trás.
- Ei! Acho que sei onde tem uma oficina por perto...
- Sério?
- Sim... Se quiser eu te levo até lá...
- Não vou te atrapalhar?
- Não... Não tem como você me atrapalhar mais ainda. Disse ela sorrindo.
Eu também sorri, arrastei a bicicleta até ela, Clara desceu e fomos andando pela calçada, apesar de estar machucado e dolorido, estava feliz por estar ao lado dela, disfarçadamente eu a admirava, como era linda, aqueles olhos azuis me deixavam encantado.
- Desculpa... Murmurou ela.
- O quê?
- Desculpa!
- Pelo quê?
- Droga, você complica tudo né?
- Não complico.
- Estou me desculpando por ter falado daquele jeito... É isso.
- Tudo bem.
- Então tá.
-Tá legal.
Nós dois viramos os rostos para o lado, dei um sorriso, acho que ela também, caminhamos em silêncio por alguns minutos, olhei para o relógio, já eram 9h40min fiquei pensando se ela não estaria atrasada.
- Acho que você vai se atrasar para o trabalho. Pode me deixar aqui, eu me viro.
- O trabalho... Não se preocupe com isso. Eu não me preocupo.
- Como não? Eu sempre recebia uma bronca do meu chefe por chegar atrasado. Uma vez ele até me demit... Ele quase me demitiu.
- Sei... Era isso que eu ia fazer hoje.
- O quê?
- Me demitir.
- Ora por quê?!
- Você pergunta demais.
- Desculpe...
- Não vi mais motivos pra trabalhar lá... Apenas isso.
- E o que vai fazer depois? E o seu futuro?
Ela desviou o olhar, olhou para o horizonte, parecia incomodada com a minha pergunta, talvez tenha sido a palavra futuro que a tenha incomodado, tive certeza de que era isso.
- Chegamos. Disse ela parando de caminhar.
- O quê?
- É logo alí. Virando a esquina tem uma oficina.
- Obrigado... O que você vai fazer agora?
- Não sei garoto, para de me perguntar. Já te trouxe até aqui. Tchau.
Ela montou na bicicleta e saiu pedalando, eu não podia deixá-la partir, já havia feito muito progresso, não podia arriscar perder tudo novamente.
- O que vai fazer o resto do dia depois que se demitir?
- Não sei! Disse ela ainda pedalando.
- Não quer que eu vá com você?
- Não! Tchau! Sapo! Respondeu dobrando a esquina.
- Droga!
Naquele minuto eu parei para pensar, aquele bairro onde eu estava era novo pra mim, durante cinco anos nunca tinha vindo ali eu sabia que a cidade era grande, mas nunca tinha tentado conhecer todos os bairros, ruas e avenidas. Era como se aquele espaço só estivesse disponível agora pra mim, eu nunca havia tentado sair da cidade, pois sabia que ficaria preso no engarrafamento por muito tempo e não daria tempo, me apeguei em poucos pontos e nunca explorei outros lugares.
Decidi não ir atrás dela, eu precisava ir com calma, um dia de cada vez, forçar a barra só poderia afastá-la de mim e não era isso que eu queria, eu sabia onde encontrá-la.
- Sapo... Ri como um bobo.
Não a vi o resto do dia, no fim da tarde a esperei no lago, sabia que ela viria como todos os dias; poderia tentar conversar mais com ela, era uma chance de me aproximar ainda mais. Agora eu tinha brechas para conversar, quando ela apareceu, me escondi, esperei ela sentar no lago e me aproximei.
- Oi?
- O quê? O que você faz aqui? Perguntou ela desconcertada, enxugou as lágrimas e ficou de pé.
- Você estava chorando?
- Não! Eu... Como chegou até aqui?
- Não... Eu perguntei primeiro.
- Como me achou aqui? Você esta me seguindo?!
- Não, não. Eu só estava passando e...
- Você é estranho... Pare de me seguir! Disse ela indo embora.
- Não, Clara! Espera! Droga...
- Me deixa em paz!
Acabei a afastando, isso resultaria na sua morte mais uma vez, eu tinha feito tudo certo até o momento, mas faltava alguma coisa, tinha que conhecer mais dela, saber mais do que ela gosta, do que ela não gosta saber quem ela é, novamente a sentenciei a morte, tive de vê-la de novo morrer.
Mais tarde, na ponte, eu estava lá a sua espera, faria isso até não precisar mais, até o dia em que ela não pisasse mais os pés naquela maldita ponte.
- Clara.
- Lucas? Por que você... Não! Não se aproxime! Eu pulo! Não Duvi...
- Calma... Posso te fazer uma pergunta? Perguntei com os olhos cheios de lágrimas.
- O que... Como assim?
- Foi bom ter me conhecido?
- Por que está me perguntando isso? O que isso importa agora?! Vai embora, por favor!
- Só responda. Depois eu prometo ir embora.
- O que isso importa?! Por que veio até aqui?! Por que está me perseguindo?
- Por favor... Responda.
Ela olhou para os meus olhos, viu minhas lágrimas caírem, parecia confusa.
- Por que você esta chorando?
- Por que eu falhei de novo. Mas amanhã tentarei não falhar. Responda a minha pergunta e eu partirei.
- Amanhã? Eu não tenho amanhã!
- Eu vou te dar um amanhã!
- Vai embora... Você é realmente louco.
- Só responda. Eu prometo partir em seguida.
- Não faz diferença!
- Pra mim faz.
- Sim... Foi. E daí?
- Então estou no caminho certo.
- Adeus... Disse ela pulando.
- Eu vou descobrir uma forma de mudar isso! Eu prometo!
Virei-me e comecei a caminhar, logo estava correndo, cada dia era mais difícil passar por aquilo, quanto mais eu a conhecia, mais queria salvá-la, e quanto mais queria salvá-la, mais eu sofria ao falhar.
- Mais uma vez... Eu falhei. Disse olhando para o relógio, eram 22h21min.
Acordei na mesma terça-feira, estava muito abatido, sabia que teria que passar por tudo aquilo de novo, eu estava indo tão bem, mas acabei pondo tudo a perder, fui novamente até a loja do seu Domingos, comprei a bicicleta, as rodinhas e a bombinha de ar, quando eu estava prestes a sair ele pôs a mão em meu ombro.
- O que houve rapaz? Você parece tão abatido.
- Está tão na cara assim? Perguntei.
- Sim. Quando olhei pra você vi que não estava bem. Acabamos de nos conhecer, mas você me parece um rapaz muito gentil, por que esta assim tão triste?  Problemas do coração?
- O senhor é bom em decifrar as pessoas... Conseguiu fazer um diagnóstico sem eu nem responder. Respondi dando um sorriso forçado.
- Não preciso procurar respostas em palavras, seus olhos te acusam. Sabia que os olhos são o espelho da alma?
- Sei...
- Seja lá qual seja o seu problema. Lhe desejo boa sorte. Anime-se! Hoje é dia dos namorados!
- Obrigado...
Quando ele fechou a porta da loja, eu senti um leve cheiro de rosas, olhei ao redor, não via rosa alguma, aquilo era estranho, lembrei daquela voz que tinha ouvido no outro dia, não era a voz da Clara, mas de quem seria?  Estava na hora de ir, ignorei o fato e fui até a casa da Clara.
Repeti tudo de novo, cada detalhe, esvaziei os pneus da bicicleta dela, consegui convencê-la a acompanhá-la, impedi que a mulher e o garoto se machucassem, até caí da ladeira mais uma vez, quando estávamos chegando à oficina para concertar minha bicicleta que incrivelmente quebrou da mesma maneira que antes, decidi tentar puxar mais assunto, talvez fosse isso que eu deveria fazer.
- Você parece abatida... Tem algo te afligindo?
- Abatida? Não... Respondeu ela passando a mão no rosto.
- Quero dizer triste.
- Estamos chegando à oficina.
- Não mude de assunto.
- Garoto eu não te conheço. Não irei falar dos meus assuntos pessoais.
- Só estou perguntando, dá pra notar nos seus olhos.
- Nos meus olhos?
- Sim. Sabia que... Os olhos são o espelho da alma?
- Eu... Já ouvi falar...
- E então?
- Chegamos. É só dobrar a esquina.
- Não vai responder?
- Se eu fosse parar pra falar, você perderia seu dia inteiro me ouvindo. Agora vá.
- Não tenho nada pra fazer hoje. O que você vai fazer depois?
- Vai logo!
- Responde ué.
- Vou trabalhar!
- Você não ia se demitir?
- Bem... Eu.
- Nós podemos sair... Pra conversar. O que acha?
- O quê? Ela parecia surpresa.
- Sair... E então? Quer sair comigo mais tarde?

                            
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