Avisos:

Já tentou ser feliz hoje? O que está esperando? Não espere a felicidade bater na sua porta, saia a procura dela.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Em um piscar de olhos - Capítulo XIII



Eu tinha certeza que não havia dito meu nome a ela, para todos os efeitos era a primeira vez que nos víamos afinal os dias se repetem, era sempre a primeira vez pra tudo, como aquela senhora sabia meu nome?
Eu virei pra perguntar, mas o susto foi ainda maior, ela havia sumido não estava mais lá, simplesmente desapareceu sem deixar rastros, fiquei olhando ao redor, mas não a encontrava em canto nenhum, fiquei abismado, seja lá o que aquilo significava aquela senhora era a resposta para todas as minhas perguntas, fiquei parado olhando para a rosa que comprei na mão dela.
- Como isso é possível?
Lembrei que deveria entregar a rosa a Clara, fui na direção dela, de longe vi que ela parecia me procurar, fui devagar sem ela perceber, cheguei por trás e coloquei a rosa em frente ao seu rosto.
- Pra você.
- Nossa... Obrigado. Disse ela com um sorriso encabulado.
- Combina com você.
- Eu... Adoro rosas. Obrigado...
Ela ficou olhando para a rosa, seu olhar de alegria foi se tornando aos poucos sombrio e tristonho, fiquei sem entender, ela olhou para o lado, parecia esconder o rosto de mim, mas eu pude ver uma lágrima cair dos seus olhos.
- Por que esta chorando? Não gostou?
- Pelo contrário... Amei.
- Então o que foi?
- Nada...
- Fala. A intenção não era fazer você chorar...
- Eu sei. Desculpa-me... É que...
- O quê?
- Você... É muito legal Lucas.
- Obrigado. Mas quero saber por que você esta chorando. Era pra sorrir.
- Eu sei. Disse ela tentando sorrir, mas as lágrimas continuavam a cair.
- Fiz algo de errado?
- Não. Você pergunta demais. Eu só...
Antes que ela terminasse, eu a puxei pra perto de mim e lhe dei um abraço bem apertado, ela ficou imóvel, peguei-a de surpresa, mas logo ouvi seus soluços de choro, ela me apertou e pôs os olhos no meu ombro, chorando ainda mais, eu nem sabia por que fiz isso, meu corpo se moveu sozinho, eu só queria vê-la bem, mas sabia que havia uma dor enorme em seu peito, a vontade de abraça-la simplesmente surgiu e assim eu fiz, sem pensar, sem ter medo do que aconteceria simplesmente a abracei como se pudesse protegê-la de tudo, na tentativa de tirar nem que seja um por cento da sua dor.
- Seja lá o que se passe no seu coração, seja lá que ferida te machuque tanto, saiba que desistir de tudo não é a saída. O tempo vira seu melhor amigo quando a dor se torna sua pior inimiga.
- Como você... Por que está me dizendo isso? Perguntou ela ainda chorando sobre meu ombro.
- Por que de alguma forma... Eu sinto a sua dor.
- Você diz coisas sem sentido... Mas que ao mesmo tempo fazem todo sentido pra mim. Disse ela enxugando suas lágrimas.
- Guardar essa dor dentro de você não adiantará uma hora ela irá transbordar pelos seus olhos.
- A dor que consome meu coração não vai terminar...
- E por que tanta dor?
- Quer mesmo saber?
- Sim.
Ela olhou para o chão, respirou fundo, enxugou as lágrimas, começou a mexer na rosa, fiquei esperando ela começar a falar.
- Morava no interior de São Paulo, sempre fui uma filha exemplar, seguia cegamente todas as regras e ensinamentos dos meus pais. Não era muito de sair, sempre ficava em casa, não por que me proibiam de sair, mas por que eu não gostava, eu só saía com meu pai todo final de semana pra pescar em um lago, aquele em que estávamos mais cedo.
Eu sempre acabava afastando todos de mim por meu jeito de ser, eu era... Eu sou áspera demais, às vezes acabo sendo fria com as pessoas e isso sempre me prejudicou, não conseguia ser diferente, mas pra mim meu mundo permanecia tranquilo enquanto eu afastasse as pessoas de mim.
Mas um dia tudo mudou, quando eu conheci um garoto, seu nome era Rodrigo, ele era totalmente o inverso de mim, bastante extrovertido, animado e cheio de energia, acabamos virando amigos. E aos poucos fomos conhecendo cada vez mais e acabei pela primeira vez na vida me apaixonando por alguém por não ter muita experiência.
Caí de paraquedas naquela paixão, meus pais eram totalmente contra, principalmente meu pai, ele tinha medo de que aquele relacionamento interferisse em meu futuro, ele sempre sonhou em me ver formada e bem de vida, é o sonho de todo pai.
 No começo eu achava tudo aquilo uma besteira, eu estava cansada de viver sozinha, aquele sentimento parecia me libertar, mas sem perceber ele também conseguia me cegar. Certo dia Rodrigo disse que iria embora, que viria para a cidade grande, que tentaria seguir a carreira de cantor, logo decidi vir com ele, largar tudo para trás e segui-lo onde ele fosse, meus pais enlouqueceram e imploraram para eu ficar, mas estava decidida e arrumei as malas e vim pra São Paulo com ele.
- Você foi corajosa...
- Eu também achei que estava sendo, mas nem sempre as coisas são como realmente parecem ser.
- Continue...
- Na primeira semana aqui, alugamos um apartamento, começamos a morar juntos, ele foi em busca do seu sonho, procurou várias agências, mas no começo só cantava em bares e restaurantes, eram tempos difíceis, mas eu sempre estava do lado dele.
 Todos os dias meus pais me ligavam, pedindo pra eu voltar, eu apenas os ignorava, estava cega de amor pelo Rodrigo, certo dia, ele finalmente foi recrutado por uma agência, entrou em uma banda e começou a fazer sucesso, ele tinha talento, mudamos de apartamento, tudo parecia ir de vento em polpa, até que ele mudou...
- Mudou?
- Rodrigo começou a beber, ir para festas sem mim, me deixava em casa sozinha, chegava tarde da noite, e quando chegava estava bêbado e às vezes me tratava mal, dia após dia, show após show ele se tornava outra pessoa. Ignorava-me, às vezes dizia que eu não era mulher pra ele, que conseguia coisa muito melhor, eu lembrava a ele de tudo que deixei pra trás pra segui-lo com seu sonho, mas ele não dava à mínima... Não dava à mínima... Repetia ela chorando.
- Clara... Se quiser parar...
- Não. Um dia ele chegou bêbado de uma festa, tentei conversar com ele e sem menos esperar levei uma tapa na cara, ele me ofendeu com diversos nomes obscenos, me humilhou, mas eu ainda o amava, permaneci lá mesmo assim, cada vez mais ele ganhava dinheiro, e cada vez mais ele ficava mais mesquinho e agressivo.
Ele chegava cada vez mais tarde, às vezes nem voltava pra casa, dizia que iria cantar em um show por aí e que não voltaria pra casa, mas eu fui desconfiando, e um dia resolvi segui-lo. Ele foi até um restaurante, no momento eu pensei que ele fosse cantar ali, mas quando o vi sair do carro com um buquê de rosas vermelhas assim como essa que você me deu, tive certeza que não eram pra mim, ele entrou e eu fui atrás, e pra minha tristeza... Ele entregou o buquê a agente dele, com quem ele estava tendo um caso.
Simplesmente perdi o chão, entrei, fiz uma cena, ele ainda me expulsou do restaurante, quando voltei para casa, ele havia dito ao porteiro pra não me deixar entrar, fiquei com a roupa do corpo, ele nem sequer me deixou pegar minhas coisas...
Ela não parava de chorar, vê-la daquele jeito partia meu coração em dois.
- Que cafajeste...
- Tentei ligar pra meus pais, mas eles não entendiam, fiquei sozinha, acabei morando na rua por meses, até que um senhor me encontrou no frio em baixo de um viaduto, ele me deu um prato de sopa e eu lhe contei minha historia, então ele me ofereceu um emprego, obviamente eu aceitei. Ele me deixaria dormir no restaurante por um tempo até eu me ajeitar.
E a partir daí nunca mais vi Rodrigo, nem consegui falar com meus pais, eu não ligava mais para eles, sabia que não queriam falar comigo, por isso parei de ligar, eu estava sozinha, aluguei esse apartamento no qual moro hoje, mas o salário que ganho mal da para eu me manter.
Eu pensava que as coisas poderiam melhorar tentar pensar positivo, mas pelo contrário, com o tempo percebi uma aproximação estranha do dono do restaurante, o mesmo que me ofereceu emprego, ele me assediava, eu sempre me afastando, durante meses ele fazia investidas em mim, mas eu sempre negava, até que semana passada ele tentou me agarrar, eu o empurrei e ele levantou e me esbofeteou, disse que se eu não ficasse com ele, estaria na rua, fiquei uma semana sem voltar lá, e hoje, como você mesmo sabe, pedi demissão, agora... Não tenho o Rodrigo, não tenho os meus pais, sem emprego, perdi tudo, não me sobrou nada... Nada! A única lembrança que tenho dos meus pais é essa foto que ficou no meu bolso. E é tudo culpa minha.
- Clara... Eu... Sinto muito. Disse a ela abraçando-a.
- Eu não sei por que... Mas quando te conheci hoje, pela primeira vez em muito tempo, eu soube o que é atenção. Desculpe dizer isso... Eu só... Desculpe. Disse ela em prantos.
- Clara...
- Eu... Preciso ir. Desculpe... Desculpe... Ela levantou e deixou a rosa cair.
Ela começou a correr, peguei a rosa do chão e fui atrás dela, corri em sua direção e a puxei pela mão.
- Clara. Espera.
- O quê? Você não precisa me ouvir mais... Por que você ouviria uma estranha com tantos problemas? Desculpa.
- Você... Esqueceu isto. Disse mostrando a rosa.
Ela pegou a rosa, olhou nos meus olhos, ainda chorava muito, levei minha mão até seu rosto macio, passei os dedos em suas lágrimas, agora eu compreendia de onde vinha toda aquela dor, sabia do por que ela observava tanto o lago, era uma forma de lembrar da sua família, sabia por que ela queria tanto a morte, por que ela perdeu tudo que tinha na vida, ela pensava que não tinha mais nada.
- Não há nada que lhe diga que apague tudo que você passou. Você disse que não tem mais nada, mas você esta enganada. Você ainda tem uma coisa.
- O quê?
- Sua vida. E de maneira nenhuma você deve nem sequer pensar em desistir dela.
- Você fala como se... Soubesse... Eu... Não posso mais viver com essa dor. Tudo na minha vida deu errado, eu sou um erro, eu não sou ninguém.
- Mesmo com toda essa dor, você ainda conseguia sorrir, isso é o que eu mais admirei em você Clara. Você não pode desistir... Uma coisa que eu aprendi é que mesmo sempre errando, você nunca deve desistir, pois o verdadeiro erro é parar de tentar acertar. Uma pessoa me disse... O ontem já é passado, o amanhã uma incerteza e o hoje se constrói no agora. Não adianta você se culpar, isso tudo lhe serve como aprendizado, acredite em mim... Eu já falhei milhares de vezes, mas nem por isso eu desisti... Como não estou desistindo agora.
- Que motivo eu tenho pra viver? Dê-me apenas um.

- Esse. Respondi puxando-a para perto de mim e lhe dando um beijo.

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3 comentários:

  1. Ai que lindo *------------------------*

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  2. peeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeerfeitooo *----*

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  3. perfeição.. achei clara parecida com uma pessoa...

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