Avisos:

Já tentou ser feliz hoje? O que está esperando? Não espere a felicidade bater na sua porta, saia a procura dela.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Em um piscar de olhos - Capítulo XV



Por fora eu parecia calmo, determinado e sério, mas por dentro eu estava desesperado e apavorado, minhas pernas não obedeciam, ela olhava para mim com um sorriso assustador, respirei fundo, minhas mãos estavam soadas, engoli a pouca saliva que tinha em minha boca.
- Quem é você afinal?
Ela começou a caminhar ao meu redor, olhava fixamente para mim, estava bem diferente de como eu a via no parque, vestia uma roupa completamente branca e sua fisionomia parecia mais juvenil.
- Eu sabia que você perguntaria isso. Disse ela com os braços cruzados caminhando ao meu redor.
- Responda!
- Eu tenho vários nomes.
- O quê?
- Já me chamaram de destino... Tempo, anjo, demônio, vida, morte.... Como você prefere me chamar?
Meu coração apertou, dei num passo para trás, minhas pernas travaram, eu me sentia acuado, sem fôlego, era uma sensação pavorosa.
- Foi você... Que me colocou aqui?
- Sim... E não.
- O quê? Pare com seus enigmas! Apenas responda.
- Eu respondi.
- Não! Não respondeu! Foi você que me prendeu aqui?! Exclamei.
- Vocês criam suas próprias prisões Lucas. Lembre-se disso.
- Por que... Por que me colocou aqui?!
- Você busca respostas. Mas nunca percebeu que já as possui. Todas elas.
- Eu não entendo... O que você quer de mim?!
- Sabe eu observo vocês desde que aprenderam a andar, falar, se relacionar entre si, fico impressionada como vocês conseguem ser tão indiferentes com sua própria espécie, desde os primórdios me perguntava qual seria o futuro da humanidade, só via dor, morte, desespero...
- Eu não estou entendendo nada.
- O que você me diz da vida Lucas?
- O quê? A vida?
- Sim. O que você me diz da vida?
- Por que você muda de assunto? O que quer de mim?
- O que me diz da vida?
- A vida... A minha vida... Repetem-se todos os dias! Por sua culpa!
- Você me culpa?
- Claro que sim! Foi você que me prendeu aqui.
- O que você fazia da vida antes de tudo isso acontecer?
- O que... Eu...
- Eu tenho a resposta pra isso. Você sempre foi egoísta, arrogante, imaturo e invejoso, nunca fazia nada que não fosse a seu próprio beneficio. Diga-me uma coisa, quantas chances seu chefe lhe deu após você chegar todos os dias atrasado?
- Foram... Muitas.
- Sabe por que todas as vezes que você esteve “preso” neste de Déjà vu, você nunca conseguiu chegar a tempo?
- Não... Eu...
- Por que você não queria chegar a tempo. Você não queria receber uma bronca. Você nunca pensou em não decepcionar seu chefe. A vida não muda até você decidir mudar-la.
- Mas eu queria chegar a tempo... Eu...
- Depois que você viu que não conseguia chegar a tempo. O que você fez?
- Eu...
- Desistiu. O que você fez depois que não conseguia salvar a Clara?
- Eu...
- Desistiu. Às vezes tentamos e falhamos... Mas a nossa maior falha é um dia deixar de tentar.
- Eu já ouvi isso... Na verdade eu já li.
- Você deve ter lido aqui não é. Disse ela com o livro que eu havia comprado na banca de jornal.
- Mas... Então...
- Você me perguntou quem eu sou. Você deve me conhecer assim. (Ela se transformou no vendedor de jornal) Ou assim (Ela se transformou no senhor Domingos) Ou assim... (Transformou-se em ambos os taxistas que eu pegava pra trabalhar).
- Era você... Sempre foi você...
- Sim. Eu sempre lhe dava as opções, mas quem fazia as escolhas era você. E então... O que você me diz da vida Lucas?
- Escolhas.
- Exato! A vida é feita de escolhas. Você fez suas escolhas. Mas olhando agora, acha que fez as corretas?
- Acho que... Não.
- Entretanto, pela primeira vez em sua vida você fez uma escolha que surpreendeu até a mim! Certo dia você voltava do trabalho, o qual tanto odeia, mas foi você mesmo que escolheu trabalhar lá ao invés de terminar a faculdade, naquela terça - feira, dia 12, você encontrou uma garota, lembra-se?
- Sim.
- E você tinha uma escolha. Apenas ignorar e seguir seu caminho, ou tentar impedir que ela fizesse a pior escolha que um ser humano pode tomar. O que você escolheu?
- Eu... Queria... Não... Eu quero salvá-la.
- No entanto você falhou. Você queria tanto salvá-la que repetiu todos os dias à mesma tentativa, mas desistiu achei que você não tinha mais futuro, tentou até desfazer da sua vida, mas no fundo da sua alma você nunca desistiu.            Por isso você sempre retorna ao mesmo dia, pois a sua vontade é maior do que qualquer falha.
- Mas eu continuo falhando... Dia após dia...
- Você lembra que no dia em que você chegou mais atrasado do que de costume no trabalho, a reação do seu chefe foi outra?
- Sim... Eu me lembro.
- Você poderia ter escolhido tentar chegar na hora, mas não se importou. Da mesma forma que você chegou mais alguns minutos depois, você poderia ter chegado alguns minutos antes.
- Escolhas...
- Escolhas nos fazem tomar atitudes, e a partir delas teremos as consequências.
- Mas e com a Clara...
- Todos os dias você tentava salvá-la da mesma maneira, tentando impedi-la de se matar, mas por que ela não o faria? Você não lhe dava motivos maiores para viver do que ela tinha pra morrer. Agora você sabe disso, não sabe?
- Sim. Eu sei.
- Não é você quem repete os dias. E sim ela. Mas o único que pode parar isso é você.
- Mas como? Mesmo quando ela não se matava... Algo causava a morte dela.
- Isso é por que ela escolheu a morte. Você estava tentando salvar apenas o corpo, mas nunca tentava salvar a alma.
- E então... O que eu devo fazer?
- Você terá uma última escolha antes de ir encontrá-la.
- Escolha?
- Sim. Disse ela estendendo as duas mãos.
- Mas o que...
Havia duas rosas, uma em cada mão, na direita uma branca, e na esquerda uma vermelha, eu olhei pra ela sem entender.
- Uma coisa já está decidida esta noite, você dará uma rosa a Clara, mas a escolha que você fizer, não mudará apenas a cor da rosa que você escolheu.
- Como assim?

- Se escolher a rosa vermelha, você viverá com a Clara todos os dias, poderá vê-la, abraçá-la, beijá-la, amá-la... Porém terá que vê-la morrer todo fim do dia, e isso se repetirá infinitamente. Se escolher a rosa branca, você volta ao ponto de início, tem a chance de salvá-la uma última vez e lhe dar a oportunidade de viver, porém não ficará com ela, a única coisa que lhe restará será amá-la e apenas isso. E então... Qual rosa você dará a ela? Diga-me Lucas, qual é a sua última escolha?
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