Avisos:

Já tentou ser feliz hoje? O que está esperando? Não espere a felicidade bater na sua porta, saia a procura dela.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Em um piscar de olhos - Capítulo XVII




Ela me olhava atenta, seus olhos fixos nos meus, era difícil raciocinar bem, estava nervoso, mas determinado a contar toda verdade, ela merecia saber, e eu merecia desabafar, tirar do meu peito toda aquela angústia, mesmo sabendo que Clara poderia não acreditar em uma palavra, ou pior, ao revelar a verdade ela poderia se levantar daquela cadeira e me deixar, mas eu estava pronto pra assumir os riscos.
- Clara... Eu...
- Seu vinho senhor. Disse o garçom pondo o vinho sobre a mesa.
- Obrigado.
- Estou muito feliz de estar aqui hoje. Disse ela sorrindo.
- Eu também...
- O que você quer me dizer?
- Bem...
Olhei em seus olhos, vi o quanto ela estava feliz, estragar aquela felicidade não era justo, nem com ela, e nem comigo, peguei em sua mão, não estava mais gelada, pelo contrario, senti naquele momento que não era o correto lhe contar tudo aquilo, era minha ultima noite com ela, não queria que minhas ultimas palavras ferissem seu pobre coração que já havia sofrido tanto, mas não podia mudar de ideia, a verdade pode doer, machucar, mas é uma dor necessária.
- Clara. Te conhecer foi a coisa mais importante que me aconteceu em muito tempo.
- Nossa...
- Sei que pode parecer estranho... Mas eu consigo sentir ao olhar nos seus olhos... Que eu seria muito feliz com você.
- Seria?
- Deixa eu continuar.
- Mas...
- Eu achei que eu quem estava te ensinando, porém é o inverso, foi você a professora todo esse tempo.
- Eu não entendo...
- Clara... Quero que você faça uma promessa.
- Promessa? Que promessa?
- Você tem que cumprir! Acima de qualquer coisa! Você tem que cumprir.
- Lucas... Por que você...
- Me prometa que irá ligar para o seus pais e fará as pazes com eles.
- O que?! Mas por que...
- Prometa! Por favor!
- Lucas... Por que esta falando deles? Pensei que fossemos falar de nós dois...
- Falarei. Mas agora prometa.
- Eu... Não sei...
- Prometa que fará de tudo pra voltar pra casa.
- Lucas... Eles não me querem mais... É perda de tempo...
- Prometa...
- Por que eu faria isso?
- Por que assim você dará uma segunda chance pra eles e pra si mesma.
- Mas...
- Permita-se ser feliz. Não deixe a sua vida passar diante dos seus olhos, não deixe a felicidade escapar pelas suas mãos como areia do deserto, agarre-a com todas as forças.
- Por que esta me dizendo isso?
- Por que eu não tive essa chance! Eu nunca fui atrás da minha felicidade, me restringi de tudo, tinha medo de arriscar, medo de tentar, medo de amar, eu era como você, depois de cair uma ou duas vezes... Deixei de caminhar pela estrada da vida, com medo de cair mais uma vez.
- Lucas...
- Mas alguém me disse... As vezes tentamos e falhamos... Mas a nossa maior falha é um dia parar de tentar. Eu falhei Clara... Não cometa o mesmo erro que eu.
Olhei para o relógio, já eram 22:00, eu estava ali com ela, pela primeira vez a Clara não corria perigo de vida, entretanto eu a perderia para sempre, nunca mais precisaria salva-la, nunca mais precisaria pensar em um plano mirabolante para convencê-la a permanecer viva, isso era bom, mas perde-la, definitivamente era uma dor que me corroía de dentro pra fora.
- Se eu posso tentar ser feliz. Você também pode. Disse ela apertando a minha mão.
- Eu descobri onde estava a minha felicidade quando olhei nos seus olhos.
Ela ficou surpresa, suas bochechas ficaram rosadas, não conseguiu evitar um sorriso, o jantar já havia chegado, eu não estava com fome, a todo momento eu olhava para o relógio, sabia que a meia noite tudo iria mudar, não fazia ideia do que poderia acontecer, mas de uma coisa eu tinha certeza, não seria mais terça feira.
- Eu prometo.
Respirei fundo, a emoção tomou conta de mim, começamos a jantar, eu estava desligado de tudo ao meu redor, Clara estava feliz, comia com um sorriso no rosto, eu mantinha meus olhos atentos no relógio pendurado na parede do restaurante.
- O que você tanto olha as horas?
- O que?
- Sim, percebi que você parece bem preocupado com as horas.
- Bem...
- Tem que ir a algum lugar?
- Eu já estou onde deveria estar.
- Sei... Disse ela sorrindo.
- Não é nada. É que cada minuto ao seu lado, é muito preciso. Disse segurando firme sua mão.
- Que lindo.
Eu não estava mentindo, era a mais pura verdade, cada segundo contava, não dava pra acreditar o quão rápido o tempo passava, enquanto conversávamos já eram 23:40, dentro de uma hora tomaríamos caminhos diferentes.
De repente ouvimos um som de viaturas, era a policia, parecia longe mas cada vez mais chegava perto, olhei para a rua e vi de longe no fim da avenida um carro vindo em alta velocidade, meu coração gelou, imediatamente levantei, aquilo só poderia significar uma coisa, algo iria acontecer que poderia por a vida de Clara em perigo, não podia permitir, não depois de ter chegado tão longe, eu havia feito um acordo com aquela maldita, ela tinha que cumprir.
- Lucas...
- Não se mecha. Disse levantando.
O carro veio em alta velocidade e se chocou com a caixa de correios em frente ao restaurante, dois homens armados saíram do carro e invadiram o estabelecimento, a policia veio logo atrás e os perseguiu, um deles aproximou-se dos clientes e apontou a arma.
- Todo mundo parado ai! Todo mundo quietinho! Exclamou balançando a pistola.
- Cara! Estamos cercados! Fodeu! Disse o outro.
- Fica na tua ai!
Ao olhar fixamente para o rostos, fiquei surpreso ao reconhece-los, eu já havia os visto antes, eram os mesmos assaltantes que eu tinha visto uma vez roubando um carro, olhei para o veiculo do que eles dirigiam e tive a certeza, era sim o carro roubado, a imagem veio em minha mente como em um filme, como aquilo podia estar acontecendo? Eu não fazia ideia do que acontecia depois das 22:23, não podia prever nada, tudo aquilo era novo pra mim, estava de mãos levantadas, Clara estava apavorada, chorava e tremia de medo.
- Eles tão lá fora cara! O que agente faz?
- Vocês estão cercados! Abaixem as armas! Exclamou um policial entrando no restaurante.
- Vamos pegar um refém! Exclamou um deles indo em direção a Clara.
Olhei para o relógio, 23:55, não podia permitir que nada nem ninguém interferisse, meu corpo simplesmente se moveu sozinho, mais uma vez, sabia que algo de ruim aconteceria, mas pela daquela vez, não poderia deixar acontecer com ela.
- Nãaaaaao! Exclamei jogando-me na frente da Clara.
O assaltante se assustou, eu apenas senti um frio na espinha, ouvi aquele som estrondaste, eu sabia o que era, logo em seguida ouvi mais dois, os policiais abateram ambos os assaltantes, mas foram três tiros, dois deles os acertaram, mas o primeiro foi em minha direção, fiquei frente a frente com Clara, ela me olhava apavorada, seus olhos esbugalhados e cheios de lágrimas, demorou para eu ouvir mais alguma coisa, o som dos tiros me deixaram surdo por alguns segundos, lentamente eu caí, não conseguia ouvir o que as pessoas diziam, Clara gritava e chamava por socorro, vi os policiais se aproximando, ela olhava pra mim e gritava.
- Lucas! Lucas! Lucas! Não faz isso comigo! Pelo amor de Deus! Não! Lucas!
- Clara...
- Fique calma... Não mecha nele. A ambulância esta chegando. Disse o policial.
- Não! Lucas! Por que?! Por que fez isso?
- Clara...
- Não! Não fala... Não fala! A ajuda já vem!
Meu rosto já estava molhado por suas lágrimas, incrivelmente eu não sentia dor, sabia que aquele era o meu fim, o ponto final que tanto demorou a chegar, segurei sua mão, olhei em seus olhos, suas lágrimas caiam sem parar, não queria vê-la chorar, o destino mais uma vez mostrou sua soberania.
- Clara... Cumpra a promessa... Me prometa...
- Lucas... Não fala assim... Por favor...
- Eu não tenho mais nenhum arrependimento... Tinha que ser assim... Agora eu sei. A minha vida pela sua.
- Não! Do que você esta falando? Você me deu um motivo pra viver! Não pode ir embora! Não me deixa! Não faz isso comigo! Todo mundo me deixou... Por favor!
- Eu não estou te deixando... Eu sempre vou estar com você... Depois de todo esse tempo... Eu... Acabei tossindo sangue sobre a roupa dela.
- Lucas...
- O tempo que tanto almejei esta me deixando... Que ironia não? Você viverá, tem uma segunda chance, eu desperdicei todas as minhas, mas no fim das contas eu consegui, te dei aquele motivo que você me pediu uma vez, viva pra ser feliz... Clara...
Lentamente olhei para o relógio da parede, o ponteiro se mexia lentamente, mas finalmente era meia noite, aquele dia que um dia amaldiçoei tinha terminado, era um recomeço, um ponto final para mim mas um inicio para ela.
- Eu te amo Clara. Feliz... Quarta-feira. Lentamente meus olhos foram se fechando, eu ouvia de longe sua voz gritando meu nome, era o fim, pelos menos eu achava que era.
Mas pra minha surpresa, eu abri meus olhos lentamente, a luz me incomodava, me perguntava se estaria morto, seria mesmo aquele o meu fim?
- Onde... Eu estou?

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